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Londrina

CÉLIA MUSILLI

m de leitura Atualizado em 05/03/2022, 10:50

A Ucrânia que eu não conhecia aparece sob as feridas

Uma cultura que eu desconhecia, cidades das quais nunca tinha ouvido o nome, a Ucrânia vai se revelando em meio aos escombros da guerra

PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 03 de março de 2022

Celia Musilli - Editora
AUTOR autor do artigo

Foto: Ilustração Marco Jacobsen
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Confesso que conhecia bem pouco da Ucrânia antes da guerra, identificava sua arte pelas danças folclóricas e as pêssankas, aqueles ovos pintados, lindos, que uns dão de presente aos outros, uma tradição eslava que significa a vida e, no cristianismo, a ressurreição.

Hoje vejo as pêssankas e, em vez da vida, penso na morte.

Confesso que me entristeço por não ter conhecido mais da Ucrânia antes da guerra. Sabia que o nome de sua capital é Kiev, mas foi na guerra que fiquei sabendo o nome de outras cidades como  Kharkiv, Lviv, Bucha, Kherson, Odessa.

Também não sabia que a cultura ucraniana vem de longa data,  vem desde a pré-história, desde o primeiro estado eslavo oriental, até chegarmos ao que conhecemos hoje.

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. |  Foto: Ilustração Marco Jacobsen
 

Faço essa reflexão na quinta-feira (3), horas antes de Rússia e Ucrânia começarem mais uma rodada de negociações, sabendo que neste momento ocorre mais um ataque russo à capital. 

Vejo Kiev caindo com um sentimento de perda humana. É uma cidade linda, como Moscou também é. São Petersburgo nem se fala. Uma pena que a humanidade não possa preservar suas belezas quando a guerra se impõe. Mais triste ainda é não preservar a vida, vivemos a tragédia repetida.

Putin, não os russos que são obrigados a participar dos conflitos, está fazendo uma guerra "antiquada" com aqueles comboios sinistros invadindo a terra dos outros, lentamente,  para apavorar e destruir.

A face da guerra mudou neste século. Os chineses fazem a guerra econômica e tecnológica sem dar um tiro. Haverá perdas? Sim. Mas ganhos também, pelo menos dão algo em troca ao mundo.

Vejo essa invasão da mesma forma que vi o ataque ao Iraque pelos EUA, com os americanos blefando sobre Saddam Hussein ter armas químicas, não tinha. Foi invasão pura com todas consequências que sabemos.

A Ucrânia tem células neonazistas? Tem. No mundo inteiro tem. Mas sua população não é neonazista. Seria a mesma coisa de invadirem o Brasil porque tem malucos, sobretudo nos estados aqui do sul, pedindo a dissolução das instituições democráticas, ou por causa dos delírios da Sara Winter, "treinada na Ucrânia."

Assisto a essa guerra na TV, no Instagram e até no TiKTok sabendo que o mundo só faz de conta que evoluiu, com a mesma tristeza com que vi a guerra dos russos no Afeganistão e depois a invasão pelos EUA, outra vez. Para dar no que sabemos.

E não me venham com conversa ideológica. Não se trata de esquerda ou direita. Putin é capitalista até a medula, financiado pelos oligarcas bilionários russos. O que está acontecendo na Ucrânia é um desperdício de humanidade e de vidas, russas inclusive. Uma guerra anacrônica, retrógrada. Não se trata só de ideologias, hoje elas se confundem nas suas carnificinas. Trata-se de ter senso humanitário ou não.

Kiev possivelmente caia esta semana, talvez já tenha caído até a data deste texto ser publicado. Uma pena para seu povo e para o mundo. Um desperdício de beleza e, sobretudo, vidas. Outra vez!

Até a Páscoa as pêssankas devem voltar coloridas e mais tristes.

...

A opinião da colunista não reflete, necessariamente, a da Folha de Londrina.

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