Jornalista, crítico de cinema e diretor de mais de 500 documentários para a tevê, Nelson Hoineff também é presidente do Instituto de Estudos da Televisão, dedicado à pesquisa e ao debate sobre o meio. Para 2010, prepara o lançamento de outros dois longas: ''Caro Francis'' (um perfil do jornalista Paulo Francis) e ''Começaria Tudo Outra Vez'' (com foco na trajetória do cantor Cauby Peixoto). Na entrevista abaixo, ele fala de seu fascínio pela figura de Chacrinha, critica a programação da tevê brasileira e adianta as próximas tendências.
Desde quando vem seu envolvimento com o Chacrinha?
Eu tenho a impressão de que o Chacrinha estava há muito tempo dentro de mim. Quando eu era adolescente, adorava ver o programa dele. E não era uma coisa muito nobre assisti-lo. Para um garoto de 17 anos, com pretensão de intelectual, ver o Chacrinha era um absurdo. Meu único contato com ele durou dez segundos, no hall de elevadores da TV Manchete. Disse que era seu fã e ele agradeceu, só isso.
O que o fascina na figura dele?
É a transgressão, disso eu tenho certeza absoluta. Quando comecei a fazer televisão, sentia que os programas que eu fazia também tinham essa veia transgressora permanente. Então, por que não fazer um filme sobre o Chacrinha? Procurei os filhos dele e isso foi determinante. Mais do que aprovar a ideia, eles me encorajaram e me ajudaram.
De onde vem a inovação que ele colocou no ar? Era algo intuitivo?
Cem por centro intuitivo. Porque ele não tinha uma formação teórica. Naquela época, diga-se de passagem, ninguém tinha. A televisão era vista como uma coisa de segunda time, e até hoje continua assim. A televisão ainda se comporta como uma débil mental em relação às outras formas de expressão.
Desde que o conceito de correção política apareceu, a sensação é de que há um processo de ''higienização'', de ''sanitarismo'' nos meios de comunicação em geral. Você concorda?
Não há a menor dúvida disso. Só não acho que isso começou agora, sempre aconteceu. Felizmente, existem espamos bem-sucedidos de renovação, tentativas de ir em direção contrária. Casos como o do Chacrinha, do Paulo Francis e do próprio ''Documento Especial''. Mas esse processo de pasteurização é sempre mais forte, e vai ganhando cada vez mais adeptos. No fim das contas, a maior vítima é o espectador.
A sociedade quer esse padrão?
A sociedade não quer, ela é levada a isso. Porque esse padrão é apresentado como a única opção. O cardápio oferecido é muito estreito, porque a visão de quem faz é estreita. As forças da acomodação são sempre maiores. O cara não quer perder o emprego, não quer pensar. Esse projeto de uma tevê entorpecedora, generalista, que nivela tudo pelo gosto médio é realmente vencedor. E o que me encanta no Chacrinha é que ele pode ter perdido a guerra, mas ganhou algumas batalhas radicalizando na incorreção.
Existe algum ''herdeiro'' do Chacrinha no ar atualmente?
O herdeiro mais próximo era o Ratinho. Mas ele foi parcialmente enquadrado, embora não tenha sofrido danos tão grandes como outros apresentadores. O Ratinho viu o Brasil de uma forma muito semelhante a que o Chacrinha via.
Agora que o reality show virou um formato consolidado, qual será a próxima tendência na tevê?
Sinceramente, não percebo muita coisa nova. Se existe uma tendência, é a da desmassificação. E a mobilidade, que está começando e vai mudar, mais uma vez, a história da televisão. A possibilidade de consumir conteúdos num receptor portátil, durante pouco tempo, certamente vai impor a criação de novos formatos e ideias. (O.G.)

mockup