'A TV deveria primar pela discrição'
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segunda-feira, 15 de setembro de 2008
Patrícia Villalba<br> Agência Estado 
A carreira do ator Pedro Cardoso teve início em uma viagem para um sítio. Lá, ele conheceu uma atriz, Gilda Guillon, que o chamou para participar de um curso de teatro. Durante as aulas, ela convidou Pedro Cardoso para operar a luz do espetáculo Cabaré Valentin, sob direção de Buza Ferraz. Mas a entrada no palco só aconteceu quando um dos atores faltou. Nos anos 80, ele entrou para a Rede Globo, onde participou da TV Pirata, programa humorístico que se tornaria marca do humor televisivo.
No cinema ele fez ''O Homem Que Copiava'', de Jorge Furtado, e ''O Que É Isso, Companheiro?'', de Bruno Barreto, baseado na obra homônima de Fernando Gabeira. E ajudou a escrever o roteiro de ''Lisbela e o Prisioneiro'', de Guel Arraes. Atualmente, interpreta Agostinho em ''A Grande Família'', série da Globo.
Qual folhetim é capaz de sobreviver ao tempo?
Os de Dias Gomes. Ele fez novelas de primeiríssima qualidade e deixou uma contribuição muito grande para o Brasil, trouxe a realidade brasileira para uma expressão poética. Outro autor que, em minha opinião, entraria para uma antologia da TV brasileira é o Gilberto Braga. O ''Dono do Mundo'' foi uma novela a que adorei assistir.
Quais os piores clichês das novelas? E quais clichês são indispensáveis?
Eu diria que o maior clichê de todos é a polarização entre o bem e o mal, porque sabemos que a vida não é tão nítida. Há aspectos que se confundem. Mas a necessidade da humanidade em separar tão nitidamente o bem do mal deve ter sentido para nossa saúde psicológica. Então, diria que o clichê mais terrível e, ao mesmo tempo mais indispensável, é a definição tão absurdamente nítida entre o bem e o mal.
Qual novela merece reprise?
O maior valor da reprise está ligado à antiguidade. Quanto mais antiga, mais atrativa é. Seria muito interessante rever as boas novelas que me marcaram quando era criança, como as de Janete Clair.
Qual foi a última novela que o deixou pregado em frente à TV?
Como estou sempre em cena no teatro, fica difícil acompanhar novela. Mas lembro que ''Roque Santeiro'' foi uma novela inesquecível. Quase tivemos que começar a peça de teatro mais tarde, porque todo mundo queria vê-la. É uma novela maravilhosamente bem-feita.
Você é mais Janete Clair ou Dias Gomes? Novela das 6, das 7 ou das 8? Novela de época ou novela contemporânea?
Tenho paixão especial pelo Dias Gomes. Ele rivaliza com Nelson Rodrigues em importância. Quanto aos horários, gosto muito de novela das seis, elas guardam uma pureza que me parece muito adequada à televisão, que é um veículo muito invasivo. Em minha opinião, a TV deveria primar pela discrição. Há uma tendência grande em empurrar uma pornografia light, como se isso fosse inofensivo. Isso me desagrada muito.
Cite um excelente ator que ainda não encontrou um papel à sua altura. E um outro, que sempre eleva um papel, seja qual for.
Se o Brasil fosse um país mais em paz com a própria imagem e tivesse uma auto-estima mais bem construída ao longo dos séculos, José Dumont seria uma figura de absoluto primeiro plano. Ele é extraordinário, raro, um tipo de ator brasileiro muito pouco valorizado. José Dumont representa muito bem o homem brasileiro. O Brasil sempre tende a querer mais o ator que represente um tipo europeu.
Que novela você gostaria de ter feito?
Não tenho essa frustração, a única coisa que gostaria de ter feito era atuar em TV quando era mais novo. Eu fui fazer televisão aos 30 anos e isso adiou muito o meu contato com o público através da televisão.
Qual a primeira novela que se lembra de acompanhar?
Foi A Cabana do Pai Tomás, eu tinha 8 ou 9 anos.
Qual a novela mais revolucionária de todos os tempos?
As novelas um pouco fantásticas do Dias Gomes eram uma introdução de uma linguagem não realista, bastante marcante. Juca de Oliveira fazia o João Gibão, um ícaro em ''Saramandaia''.
Qual a cena que nunca saiu de sua memória?
Não é uma cena, mas quase um capítulo inteiro: a sequência em que o personagem do Antonio Fagundes seduz o da Malu Mader em ''O Dono do Mundo''. Acho uma brilhante montagem dramatúrgica muito verossímil e um acontecimento excepcional que define a maldade. É um assunto que me interessa muito: a perversidade da sexualidade masculina em toda sua complexidade e inconstância. A tentativa de eliminação dessa inconstância, tão natural, ou seja, querer viver em um núcleo familiar, pode produzir atitudes perversas. Ainda hoje as mulheres são subjugadas. A cena do Gilberto Braga merece estar em uma antologia.
Qual seu casal de mocinhos preferido?
Tarcísio Meira e Glória Menezes.
Qual o melhor vilão da história da TV?
É o Leôncio, de Escrava Isaura. É um vilão emblemático.
Qual atriz faz a mocinha sofredora perfeita e também a vilã mais odiável?
Eu acompanho a Glória Pires, que faz televisão desde muito jovem. Tanto a Fátima de ''Vale Tudo'' como Zuca da primeira versão de ''Cabocla'' foram muito legais. Ela fez ótimas vilãs e mocinhas maravilhosas.
Final feliz é algo imprescindível a uma novela?
Enquanto a teledramaturgia for baseada no clichê da separação entre o bem e o mal, o happy end é indispensável.


