Considerada a ‘‘senhora dos lares’’, a televisão brasileira completa hoje meio século de existência, uma trajetória que reúne grandes momentos e baixarias
Um brinde à cinquentona. Hoje a televisão comemora meio século de serviços prestados aos lares brasileiros. Serviços e desserviços, convém acrescentar, afinal não foram poucas as ocasiões em que vozes se levantaram para acusá-la disso ou daquilo desde que a atriz Lolita Rodrigues deu o ar de graça cantando o ‘‘Hino da Televisão’’ na extinta Tupi no dia 18 de setembro de 1950.
Para festejar o aniversário, vários eventos foram preparados em São Paulo, entre eles uma retrospectiva de sua história reunindo fotos, objetos e figurinos no espaço cultural da Caixa Econômica Federal. Livros também estão sendo lançados para carimbar a data. Aos interessados em saber mais sobre a trajetória da tevê no país, a editora Objetiva acaba de colocar nas prateleiras o ‘‘Almanaque da TV – 50 Anos de Memória e Informação’’, de Ricardo ‘‘Rixa’’ Xavier.
A Negócios Editora vem com ‘‘Era Uma Vez ... A Televisão’’, de João Loredo. A Fundação Assis Chateubriand tira dos fornos ‘‘Tupi – Pioneira da Televisão Brasileira’’, de Almeida Castro. E, por fim, a editora Globo dá os retoques finais no título mais aguardado da temporada: ‘‘50/50’’, uma coletânea de depoimentos de gente como Silvio Santos, Hebe Camargo e Vida Alves.
O volume foi coordenado por José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, em parceria com outros funcionários de longa data da Rede Globo. Há ainda a editora Jorge Zahar que publicou ‘‘Eu Compro Essa Mulher – Romance e Consumo nas Telenovelas Brasileiras e Mexicanas’’, de Cristiane Costa. É a exceção em meio à fornada de volumes celebratórios, embora seu conteúdo passe longe do perfil ‘‘estraga-festa’’.
Aliás, o próprio título ‘‘Eu Compro Essa Mulher’’ não deixa de ser uma homenagem ao citar a novela homônima escrita pela cubana Glória Magadan e exibida pela Globo em 1966. Como todos os folhetins eletrônicos da época, esse não fugia do modelo único de dramalhão meloso hispano-americano então em voga. Foi só nos anos 70, com Janete Clair, que as tramas da Globo adotaram a narrativa realista e os personagens verossímeis consagrados até hoje.
De lá para cá, o brasileiro transformou o hábito de ver novela em ‘‘religião’’, a ponto de elevá-la ao status de produto cultural mais popular do país ao lado do samba e do futebol. Estima-se que cerca de 55 milhões de telespectadores estejam acompanhando as aflições de Capitu em ‘‘Laços de Família’’. Não à toa, o gênero tornou-se o produto mais bem-sucedido da tevê brasileira, sendo apreciado hoje em 61 países.
O sucesso internacional é tanto que Lima Duarte e Regina Duarte chegaram a desfilar em carro aberto nas ruas de Lisboa graças à repercussão da novela ‘‘Roque Santeiro’’ (1985). O filósofo da USP Renato Janine Ribeiro observou certa vez que a Globo era progressista nas novelas e conformista nos noticiários. ‘‘Globo faz ficção jornalística e jornalismo ficcional’’ era o título de seu artigo.
De fato, o ‘‘Jornal Nacional’’ foi aos poucos perdendo a credibilidade e se transformando numa ilha de fantasia. Sem poupar as demais emissoras, cujos programas jornalísticos pouco ousaram ao longo dessas cinco décadas, coube a rede-líder sabotar com mais cara-de-pau o desenvolvimento da cidadania no país. A espantosa recusa em noticiar os comícios das Diretas-já em 1984 e o debate entre Collor e Lula mal editado no ‘‘Jornal Nacional’’ de forma a favorecer o primeiro em 1989, já fazem parte do folclore televisivo brazuca.
O sensacionalismo também gerou momentos deprimentes nos noticiários da telinha. Quem não se lembra do escândalo da Escola Base, em São Paulo, quando seus diretores e professores se viram acusados de molestar sexualmente os alunos? Os suspeitos foram presos e humilhados sem provas e a própria sede da escola foi depredada. Quase todos os meios de comunicação participaram do episódio, mas as emissoras de TV foram as que mais conclamaram ao linchamento moral. Ao final do inquérito, todos os suspeitos foram inocentados.
Mesmo com essas manchas em sua história, a televisão nunca deixou de ser a grande senhora dos lares, mais importante para o brasileiro do que a geladeira. Às vésperas de seu cinquentenário, mais precisamente durante o Plano Real, houve um boom no consumo de aparelhos entre as classes C e D. Constatou-se que 28 milhões de novos televisores foram ligados no período. Como na TV impera a lógica da maior audiência, houve por reflexo uma remodelação no perfil da programação.
Daí o reino do popularesco e a enxurrada de baixarias que tantas polêmicas provocaram nos últimos anos em programas de auditório de figuras como Ratinho, Márcia, Sérgio Mallandro, Faustão e Gugu Liberato. Mas esses e outros excessos repercutiram agora nos gabinetes do Governo Federal. No dia em que a TV sopra cinquenta velinhas, entra em vigor uma portaria do Ministério da Justiça determinando que programas desaconselháveis para menores de 16 anos não poderão ser exibidos antes das 22 horas e que antes de cada atração o canal deverá avisar para qual faixa de idade ela é adequada.

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