A TRILHA DE UM LOBO
Mário Adnet
Agência Estado
Ao assistir pela primeira vez ao musical West Side Story no cinema, o menino Edu Lobo desejara ser o autor daquela música. Bem diferente da maioria que sempre sonha em ser mocinho ou bandido. De lá para cá quase todos os seus sucessos fazem parte de trilhas famosas para teatro, balé e cinema, como Arena Conta Zumbi, O Grande Circo Místico e Canudos.
Preparando a trilha de O Xangô de Baker Street, filme dirigido por Miguel
Faria Jr., baseado no livro de Jô Soares, e de uma peça de Marília Pera,
ele conta sua trajetória até o cinema.
Primeiros passos - Não convivi com meu pai até os 18 anos. O que aconteceu é que meus pais se separaram quando eu tinha 1 ano e se casaram de novo quando tinha 19. Durante esse tempo não tive quase nenhum contato com ele ou com a música que ele fazia. Quando era garoto, minha mãe me colocou numa escola de acordeão, que na época era moda. Não tinha nenhuma paixão por esse instrumento mas gostava muito de ouvir música. Lembro-me de estar nessa escola tocando e os professores comentando que eu tinha muita facilidade, um ouvido muito bom mas uma preguiça enorme para leitura de partitura e toda a parte teórica. Curioso é que durante esse período de infância e adolescência, nunca sonhei e nem me passava pela cabeça a possibilidade de me tornar um músico.
Violão - Eu já inventava umas coisas no acordeão mas os experimentos começaram mesmo quando conheci o violão através do meu amigo Téo de Barros (autor de Disparada), que já tocava muito bem. O violão não era tão nobre naquela época, principalmente para tocar música popular e eu tinha que me contentar com o acordeão mesmo... Sei que o violão que acabei ganhando foi uma espécie de conquista. Comecei a tocar com um emprestado e sentia uma facilidade razoável. Um dia saí tocando para as pessoas, ninguém sabia que eu tocava, foi uma surpresa. Na faculdade eu tocava muito violão. Era uma forma também de chamar a atenção das meninas. Para mim era como se fosse uma prancha de surf ou uma bicicleta em que eu andasse muito bem.
Vinícius - Conheci o Vinícius numa festa, estava tocando algumas canções que tinha feito, ele conhecia meu pai e esse foi o assunto da primeira aproximação. Depois ele disse que tinha ouvido falar de mim, que tinha gostado das minhas composições e perguntou se eu não tinha uma sem letra. Toquei para ele ali mesmo e ele resolveu fazer uma letra na hora. Só Me Fez Bem foi a nossa primeira parceria.
Tom Jobim - Quem me levou para conhecer o Tom foi o Vinícius. Antes, lembro da primeira vez que o vi entrando no bar Esplanada, ele foi chegando com um bolo de partituras debaixo do braço e falando da Sinfonia de Brasília. Fiquei impressionado de ver um músico popular jovem, de paletó e falando em orquestra. A idéia do compositor popular mudou naquele momento. O orquestrador cuidava dos arranjos, o maestro regia, o compositor fazia músicas e, de repente, encontro o Tom que fazia tudo isso e mais um pouco. Eu e o pessoal que andava comigo, o Marcos Valle, o Dori Caymmi, presenciamos o nascimento de várias músicas do início de carreira dele como Ela É Carioca e Só Tinha de Ser com Você.
Luiz Eça - Foi o primeiro a gravar uma música minha com o Tamba Trio. Luizinho fez um disco brilhante, muito importante para mim, Luiz Eça e Cordas. Eu ia nas gravações, acompanhava todo o processo, dos arranjos às gravações. Comecei a ver minhas músicas serem bem tratadas. Quando vi tudo escrito na partitura e depois soando lindo no estúdio, tive a certeza absoluta de que eu queria aprender a fazer aquilo, quer dizer, queria aprender a escrever ou, pelo menos, compreender como era. Demorou um certo tempo para que eu pudesse realizar isso.
Harmonia - O estudo de harmonia, na verdade, é uma coisa que nunca me interessou. Já li a respeito disso várias vezes e diversos compositores importantes são da mesma opinião. Harmonia ou você tem ou não tem. Segundo os livros de harmonia tradicional, não se pode isso, nem aquilo. Na verdade tudo pode, desde que soe bem, que tenha uma lógica sentimental, uma lógica abstrata, ou seja, não tem nenhuma lógica. Tem uma frase linda do grande compositor americano Aaron Copland a respeito da explicação da música: Quando um homem de letras escreve duas palavras sobre música, uma das duas está errada. Música não se explica. Um tipo de harmonia pode ter sentido para quem é músico e para uma pessoa com uma cabeça simples pode não ter nenhum.
Xangô - Preparei a música primeiramente para as filmagens, a pré-trilha. Já tenho uma canção pronta, Forrobodó, com letra do Chico, na linha de Chiquinha Gonzaga e Ernesto Nazareth. A idéia é servir ao filme, que estará sincronizado com o meu computador tanto na trilha incidental, criando temas de acordo com a necessidade das cenas, quanto nas várias canções. Desse modo funciona bem no cinema e também em disco. Como a história se passa no final do século passado, comecei a ouvir muito o Nazareth, um compositor de quem eu sempre gostei. Mas não conhecia assim tão bem a obra dele. Então, eu comprei várias partituras, fui prestando atenção naquela sonoridade, descobrindo influências e semelhanças com Scott Joplin.





