Uma migração de estabelecimentos comerciais está mudando a cara de um edifício no Centro de Londrina. Localizado na Rua Goiás, no número 1328, o prédio passou a abrigar uma série de empreendimentos comandados por jovens empresários - e todos com oferta de produtos e serviços voltada para a clientela da mesma faixa etária.
Um estúdio de tatuagem, um salão especializado em cortes de cabelo anti-convencionais, uma loja de produtos diferenciados criados por artistas locais, uma produtora de vídeo, um estúdio fotográfico, um bar com discotecagem indie rock e um coletivo de fotografia e design são alguns dos segmentos concentrados no local.
A transformação é tanta que a própria proprietária do imóvel planeja rebatizar o edifício - registrado como Nossa Senhora de Fátima - para "Galeria 13", nome fantasia cunhado pelos próprios empreendedores. "Eu gostaria de fazer essa alteração para deixar tudo legalizado, pelo menos para colocar na fachada das lojas do térreo", diz Josefina Prezoto Bertolaccini.
O prédio foi inaugurado em 1970, mas só começou a adquirir o novo perfil com a instalação do estúdio Forttuna Tattoo, há quatro anos. "Tudo aconteceu espontaneamente. Um foi chamando o outro porque todos se conhecem, todos são amigos. Achei muito interessante. As coisas têm dado certo. Hoje mesmo, uma outra pessoa dessa turminha me ligou para saber se tem alguma sala vaga", conta ela.
A estudante universitária Julianna Maia, frequentadora assídua do local, é uma entusiasta do empreendimento. "Achei interessante a inciativa das lojas se unirem em um ponto estratégico da cidade, transformando uma galeria que era esquecida em um lugar alternativo. Londrina já estava sem opção underground e foi reconfortante a vinda desse cenário, que me lembrou um pedacinho da galeria do rock em São Paulo e uma outra galeria que conheci em Buenos Aires", assinala.
A também estudante Veronica Takagui é outra que vive por ali. "Frequento o (bar) Warm pra beber e encontrar os amigos e às vezes acho algumas coisas nas lojas Cambada e Bar.Bearia Store. Também simpatizo com a tia da floricultura e corto meu cabelo com a Dani, no Rainha de Copas. Aliás, adorei que ela mudou para este lugar", diz.

Ponto de referência
João Tattoo, do Forttuna Tattoo, lembra que quando abriu o estúdio havia um fluxo de pessoas no lugar bem menor do que o atual. "Havia salas com placas para alugar e a floricultura, que está aqui há quase 30 anos, era delivery. Os clientes não vinham para cá. Depois que nossos amigos foram se instalando, girou um comércio maior. A pessoa vem para fazer uma tatuagem e aproveita para cortar o cabelo e conhecer as lojas. O espaço virou um ponto de referência", salienta.
Sócio-proprietário da loja Bar.bearia Store, que comercializa roupas e acessórios, Bruno Marconato explica que cada estabelecimento "tem sua própria atividade, mas todos têm um interesse comum em torno da cultura urbana, do universo do design e das artes visuais". Thais Blanco, da loja colaborativa Cambada, acrescenta que a proposta coletiva é "juntar todos esses micro-universos e linguagens para dialogar com o cotidiano da cidade valorizando sempre a identidade local".
Segundo ela, Londrina conta com uma produção em diversas áreas "que não deve nada para cidades maiores". "Todos, aqui, prezam por um trabalho alternativo e autoral forte. O legal é poder mostrar isso sem agredir a área residencial em volta", diz. Essa preocupação é prioritária para Matheus Merp, dono do Warm Lounge Bar, o único estabelecimento do local a permanecer aberto até tarde da noite.

Vizinhança
Merp explica que a proximidade de edifícios residenciais não foi problema para escolher o ponto em junho do ano passado. "Até agora não tive problemas, por causa de barulho, com a vizinhança", garante. Embora ressalte a novidade trazida pela "Galeria 13" a Londrina, ele aponta vários centros comerciais com perfil semelhante existentes no Brasil. "Em São Paulo tem a Galeria do Rock, a Galeria Ouro Fino e as regiões da Rua Augusta e da Vila Madalena. No Rio de Janeiro, há lugares parecidos numa parte da Lapa e no Largo do Barata. Também já vi alguns pontos assim em Porto Alegre", diz.
De acordo com ele, os clientes do Warm são em grande parte estudantes e profissionais de áreas como Comunicação, Design e Moda. "Minha preocupação com cada cliente vai além do interior do bar. Sinto-me responsável por ele chegar bem em sua casa. Se ele vem beber, procuro estimular que volte para casa de táxi. Adotamos inclusive um serviço de pagar parte do preço da corrida", assinala.
Merp conta que antes de abrir o bar fez um estudo técnico sobre as ruas de Londrina e constatou que a Rua Goiás detém o privilégio de ser a terceira mais movimentada de Londrina, ficando atrás apenas das ruas Sergipe e Quintino Bocaiúva. Com essa informação, saiu atrás de uma sala disponível até ser cativado pelo antigo edifício comercial onde sua amiga e hair stylist Daniela G. Silva, a Dani, já estava instalada com o salão de cabeleireiro Rainha de Copas.

Entre amigos
Para Dani, a "Galeria 13" representa um novo estágio para o mercado de perfil "alternativo" na cidade. "Londrina é careta e conservadora. Quem atua no underground tende a se isolar por causa do preconceito. Acho ótimo que exista agora um espaço concentrando várias atividades profissionais desse segmento. Espero que continue e seja um exemplo", assinala.
Ela salienta que o ambiente do lugar mudou até sua rotina. "Geralmente, as pessoas encerram o expediente e saem correndo para chegar em casa. Eu fecho a porta e continuo por aqui com meus amigos. A gente compra um bolo, bebe e bate um papo. Isso é qualidade de vida", diz. Em março, a Galeria 13 abre mais uma sala com o início das atividades de um estúdio de gravação, o Audiotreze.

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