Antônio Mariano Júnior
De Curitiba
Rosto redondo, quantas luas inchadas. Conhaques em goles pequenos, colheradas imprecisas nas sopas preparadas por Cerenita. Hidratação necessária após a vinda de inferninhos cheios de anjos guardiões – tortos – desses que urinam em velas acesas. Vida de boêmio é sempre assim – cheia de idas e vindas, de destilados e caldos grossos. Costumava ele dizer: ‘‘Tenho o micróbio do samba no sangue.’’ Não foi o tal micróbio que o matou. Foi o coração que pifou.
Foi fraquejando, fraquejando, fraquejando até parar de vez, no dia 27 de agosto de 1974. Foi-se embora, nesse dia, Lupicínio Rodrigues, ao som de um baiano com voz afeminada que cantava sem parar, nas rádios do todo o País, ‘‘Felicidade’’. Caetano Veloso resgatava musicalmente o gaúcho Lupicínio e o Brasil perdia o ‘‘rei da fossa’’, mestre do samba-canção, notável e profundo expert em cotovelos febris.
O legado musical de Lupi, para o mais íntimos, é valiosíssimo. São quase 600 canções, pelo menos duas dezenas transformadas em clássicos. Boêmios ou filhas de Maria sabem de cor pelo menos uma. Sabem, sabem sim. Lupicínio tinha propriedade para fazer canções certas a corações errados ou erradios.
Seus sambas-canções – muitos escritos em tonalidades menores – eram assim, digamos, hinos de alcova. Nada tão masoquistamente agradável como chorar no ombro do sofá ou expor sofrimentos em mesas de bares ao som de ‘‘Nunca’’ ‘‘Nem que o mundo caia sobre mim/ Nem sem Deus mandar, nem mesmo assim/ As pazes contigo eu farei’’. Ou ‘‘Vingança’’ ‘‘Mas enquanto houver força em meu peito/Eu não quero mais nada/Só vingança, vingança, vingança aos santos clamar’’. Ou ‘‘Ela Disse-me Assim’’ ‘‘Tenha pena de mim/ vá embora/ele pode chegar/vais me prejudicar/está na hora’’. E vai daí.
Dizer que o bar era sua segunda casa não é cair no lugar-comum. Em quantas de suas segundas casas ele desceu ao inferninho à procura de luz e trouxe à tona preciosidades musicais. Nas bocas-quentes da noite porto-alegrense sorvia hálitos e cavucava profundezas em muitas criaturas femininas; mulher, só Cerenita – uma santa, cá pra nós – de quem sorvia sopas e jurava – à sua maneira – amor eterno.
Era machista, sim!! Machista convicto ao ponto de teorizar que uma esposa tinha que ser uma ‘‘segunda mãe’’ para o homem. A elas, entre outras atribuições, cabia ‘‘fazer chazinho de marcela e sopinha quando estivermos de ressaca e também nos passar uma carraspana quando andarmos abusando’’. Palavras dele. De Lupi. Porém, seu cancioneiro se sobrepõe a pensamentos tortos e politicamente incorretos (nos dias de hoje, obviamente).
Fosse uma breve ficha técnica poderíamos assim resumir a vida do compositor. Nome: Lupicínio Rodrigues. Profissão: compositor (dos bons). Vocação: boêmia. Bebida: conhaque (tomado sempre aos golinhos). Ofício: fiscal do Sbacem (espécie de Ecad, no Rio Grande do Sul). Em 95, a Editora L&PM trazia à público uma atividade pouco conhecida: a do cronista Lupicínio Rodrigues.
A publicação, organizada pelo filho Lupicínio Júnior, é recheada de crônicas que ele escreveu entre fevereiro de 63 e fevereiro de 64, no Jornal Última Hora. Nas suas bem – às vezes mal – traçadas linhas, aos sábados, ele brindava os leitores com sua coluna ‘‘Roteiro de um Boêmio’’, com croniquetas em que informava a origem de suas canções.
Aliás, suas músicas serviram de base para livros como ‘‘As Paixões Tristes – Lupicínio e a Dor-de-cotovelo’’, de Rosa Maria Dias; e ‘‘Melodia e Sintonia em Lupicínio Rodrigues – o Feminino, o Masculino e suas Relações’’, dos historiadores Maria Izilda Matos e Fernando Antônio Faria. Melhor que ler é cantar Lupicínio Rodrigues. E nesse ponto não faltaram intérpretes. Estima-se que 150 de suas composições foram registradas em disco.
A primeira gravação foi feita em 1936, num bolachão de 78 rpm, pelo gaúcho Alcides Gonçalves – de um lado, ‘‘Triste História’’ e do outro, ‘‘Pergunte aos meus Tamancos’’. Porém dois anos depois Francisco Alves, o rei (esse sim) da voz, avalizava seu talento ao gravar a antológica ‘‘Cadeira Vazia’’. Nesse mesmo ano, outro grande, Ciro Monteiro, punha sua voz em ‘‘Se Acaso Você Chegasse’’ – que Elza Soares, vinte e poucos anos depois, tomaria para sempre como sua.
Inúmeros cantores da chamada ‘‘época de ouro’’ também deram cor e tessitura às mazelas amorosas – Dalva de Oliveira, Cauby Peixoto, Elizeth Cardoso, Linda Baptista, Nora Ney, Orlando (grande) Silva, entre outros. Embora seja lembrado pelas canções dor-de-cotovelo, Lupicínio compôs também marchas e valsas. Poucas, é verdade.
É dele o Hino do Grêmio, que só foi reconhecido como oficial pela torcida anos depois. Comenta-se que o motivo era um preconceito velado pelo fato de ele ser negro. Os preconceituosos se foram, ficou a beleza do hino. Pois bem, os anos se passaram, os movimentos musicais vieram com tudo e Lupicínio quase caiu no esquecimento.
Seu talento seria resgatado e revisado por uma nova geração de cantores, na década de 70. Pelo menos três artistas foram importantíssimos ao lembrar o Brasil que Lupicínio estava ainda bem vivo, obrigado: Paulinho da Viola (com ‘‘Nervos de Aço’’), Gal Costa (‘‘Volta’’), ambas gravadas em 73; e principalmente Caetano Veloso (‘‘Felicidade’’), em 74.
Na esteira, outros voltaram a atenção para a obra do compositor gaúcho – Maria Bethânia, Elis Regina (a regravação de ‘‘Cadeira Vazia’’ é simplesmente arrepiante), Gilberto Gil, Joanna, Simone, Zizi Possi, Adriana Calcanhotto, Tetê Espíndola (‘‘Judiaria’’ é uma delícia em sua voz) só para citar alguns. Porém Jamelão, com sua voz de trovão, será, até que provem o contrário, o intérprete oficial do velho Lupi.
Tá certo, datas redondas servem para isso mesmo: jogar loas. Mas uma coisa é certa: depois que Lupicínio Rodrigues morreu, há exatos 25 anos, as portas dos bares de Porto Alegre não sorriem tão largamente.

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