Marcos Losnak
De Londrina
Especial para a Folha2
A traição é um prato de sopa medicinal que se toma num leito esperando pela cura. A traição como tentativa de acerto. A traição como um balde de água atirado num incêndio. A traição como exercício da própria verdade.
Essa espécie de traição persegue e atormenta o garoto (cujo apelido é Prófi, diminutivo de professor), protagonista do novo romance do escritor israelense Amós Oz, ‘‘Pantera no Porão’’. Lançada pela Editora Companhia das Letras, a obra narra a conflituosa vida do garoto judeu em plena Jerusalém de 1947, época em que a cidade estava ocupada pelo exército britânico – antes da criação do Estado de Israel ocorrida em 1948. A obra possui fortes traços autobiográficos de Amós Oz.
Ao lado de dois amigos, Prófi funda uma organização clandestina de resistência à ocupação britânica. Seguindo o exemplo dos adultos, o grupo infantil deseja a retirada, através da violência se preciso, do exército inglês e dos árabes da região. Para isso, brincam de fabricar bombas de sucata com objetivo destruir o inimigo.
Um belo dia, ao violar o toque de recolher em vigor, Prófi é apanhado por um oficial do exército inglês, sargento Dunlop. O oficial é um admirador da cultura hebraica e encaminha o garoto aos seus pais. No caminho propõe uma troca. Prófi lhe ensinaria hebraico, em troca ele lhe ensinaria a língua inglesa.
Vislumbrando uma possibilidade de obter informações secretas do inimigo, Prófi aceita a troca brincando de espião. O resultado é que, no decorrer das aulas, o garoto passa a simpatizar-se com o sargento. Quando começa a admitir que está gostando do inimigo, seus amigos o expulsam da organização sob a acusação de traição. Seguindo um percurso existencial e emocional, Prófi passa a explorar o conceito de traição, um sentimento que será recorrente em toda sua existência.
A traição fincará as garras em sua consciência várias vezes. Após trair seus amigos com o sargento inglês, trairá o sargento com sua grande paixão platônica, uma moça com quase o dobro de sua idade, na sequência trairá a paixão com seus pais.
O narrador de ‘‘Pantera no Porão’’ é o próprio Prófi, adulto. Amós Oz cria uma voz adulta tentando desvendar a própria infância. Nesse relato coloca duas abordagens numa mesma narrativa, a percepção adulta tentando colocar-se na condição da percepção infantil, e a reflexão adulta realizando a leitura dos caminhos da própria infância e seus reflexos da trajetória adulta. -
Carregado de contexto histórico e geográfico, o romance é narrado por um adulto revisitando os acontecimentos e perturbações de sua infância. Procura reconstituir sua percepção das conflitos sociais e individuais que o abalaram na infância apresentando suas memórias atormentada.
O protagonista vive uma espécie de rito de passagem, precisa deixar o universo infantil para entrar na universo adulto num complexo contexto social de conflito. Assiste a sua infância ser roubada pelo contexto social. Assiste ao desfile de suas dificuldades em entender os reais sentidos que comandam a existência adulta.
Uma das alegorias presente em toda a extensão do romance é a imagem da sombra, da escuridão. Geralmente, ao fim de cada reflexão, Prófi chega a conclusão que ele nunca é capaz de ver e compreender realmente as coisas, apenas suas sombras. Amós Oz indica que tudo aquilo que vemos não corresponde exatamente a verdade, mas às suas sombras - a impossibilidade de ver com clareza quando múltiplos fatores estão em jogo.
Nascido em Jerusalém em 1939, Amós Oz é considerado um dos maiores escritores israelenses contemporâneos. Além de professor de literatura hebraica da Universidade de Ben Gurion, Oz realiza trabalho de militância em prol da paz entre árabes e israelenses. Entre seus romances publicados no Brasil estão ‘‘Conhecer Uma Mulher’’ (1992) ‘‘A Caixa Preta’’ (1993), ‘‘Fima’’ (1996) e ‘‘Não Diga Noite’’ (1997), todos lançados pela Companhia das Letras.
Ao final de ‘‘Pantera no Porão’’, o narrador volta ao seu conflito recorrente. Resume tudo nas últimas linhas do livro: ‘‘Será que por ter contado a história traí mais uma vez a eles todos? Ou pelo contrário: não contar seria traí-los?’’
Como o passado também é uma sombra, em tudo que aconteceu, fruto de seus próprios atos ou não, existe a reflexão sobre a inversão de todos os atos, o oposto do acontecido. Nesse sentido existem vários caminhos: 1) ‘‘O oposto do que aconteceu é aquilo que não aconteceu.’’ 2) ‘‘O oposto do que aconteceu é o que ainda vai acontecer.’’ 3) ‘‘O oposto do que aconteceu é o que poderia ter acontecido, se não fossem as mentiras e os medos.’’
• A Pantera no Porão , de Amós Oz, Editora Companhia das Letras, tradução de Milton Lando e Isa Mara Lando, 145 páginas, R$ 18,50.‘‘Pantera no Porão’’, romance do escritor israelense Amós Oz, focaliza os conflitos de um garoto a caminho da maturidade
Reprodução/ilustração da capa de ‘‘Pantera no Porão’’Obra possui fortes traços autobiográficos

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