Carlos Eduardo Lourenço Jorge
De Londrina
Especial para a Folha 2
Ressalvadas algumas raras exceções domésticas que confirmam a regra, uma visão mais crítica e cáustica da sociedade americana é sempre através de olhos estrangeiros. O tcheco Milos Forman é um dos implacáveis vigilantes do american way of life e seus muitos incidentes de percurso. O oriental Ang Lee é outro mestre na arte do raio X que detecta o mal-estar profundo que acomete segmentos abastados da entediada subúrbia média-alta. A eles junta-se agora o inglês (de pai português) Sam Mendes, um craque do teatro fazendo sua estréia no cinema. E o filme que retoma o assunto é ‘‘Beleza Americana’’ (veja a programação na página 5), que acaba de levar três Globos de Ouro dados pela imprensa estrangeira – inclusive os de melhor filme e direção – e desde já habilitado a colecionar diversas nominações ao Oscar-2000 a partir do próximo dia 15, quando a Academia divulgar a relação dos candidatos à estatueta que será entregue em 26 de março.
O roteiro de ‘‘American Beauty’’ impressionou tanto Steven Spielberg (‘‘O melhor que li nos últimos cinco anos’’) que o magnata co-proprietário da megaprodutora DreamWorks ordenou pessoalmente que a política mais corrente do estúdio – financiar blockbusters – fosse alterada, e que o orçamento previsto de 15 milhões fosse viabilizado imediatamente.
E o mais surpreendente ainda: Spielberg chamou o novato Sam Mendes e lhe entregou a direção. Sobre esta mudança de ambiente, o estreante tem uma curiosa observação: ‘‘Se você grita no teatro, durante os ensaios de uma peça, as pessoas pensam que você está ficando louco: mas se você levanta a voz no set de filmagem, as pessoas trabalham um pouquinho mais duro’’.
‘‘É uma comédia social muito engraçada’’, diz Mendes. ‘‘Mas de uma forma subliminar, é um filme sobre transformações e fuga. Ele conduz a locais obscuros.’’ Kevin Spacey (‘‘Os Suspeitos’’, ‘‘L. A. Confidential’’) é um suburbano na faixa dos 40 particularmente insatisfeito com o andamento de sua existência. Ele é o desorientado Lester Burnham, um cínico que odeia seu trabalho como jornalista, a mulher e a ele mesmo. A mulher de Lester é Carolyn (Annette Bening, a caminho da nominação), uma burguesa estressada a rigor, uma obcecada por status. A filha do casal, a adolescente Jane, acompanha incrédula o que se passa à volta, e mais incrédula ainda quando percebe que o pai arde de desejo pela melhor amiga, a também adolescente Angela, e que esta retribui o assédio.
Na corrida ao Oscar deste ano, ‘‘Beleza Americana’’ é apenas um entre vários filmes bem mais em conta em que os grandes estúdios apostaram na última temporada. Nada de pirotecnias ou ação explosiva em ‘‘Man on the Moon’’, de Milos Forman, ou em ‘‘The Hurricane’’, de Norman Jewison, ou ainda em ‘‘O Talentoso Mr. Ripley’’, de Anthony Minghella. Todos com resultado de bilheteria entre discreto e satisfatório, para os habituais padrões arrasa-quarteirão. E é em função desta performance mais discreta que as companhias estão investindo em estratégia diversificada (‘‘Beleza Americana’’ só entra normalmente em circuito a partir do dia 25, depois de pré-estréias em três fins de semana).
No caso, o grande vencedor sem dúvida é o bom cinema, e por extensão seu espectador cativo. Mas se engana quem aposta em mudança no comportamento da maior indústria de entretenimento do mundo. Esta proposta, digamos, intimista que alterou os rumos da produção hollywoodiana em 99, com os resultados que conferimos agora, não deverá ser por muito tempo privilegiada. Na alta rotatividade do mercado, a maior e mais longa permanência é sempre destinada ao entretenimento escapista. E isto também é regra, e não exceção.‘‘Beleza Americana’’, já premiado com o Globo de Ouro, tem pré-estréias
a partir de hoje em Curitiba e outras capitais
ReproduçãoCena de ‘‘Beleza Americana’’: dirigido por Sam Mendes, filme detecta a crise existencial da classe média/alta no fim dos anos 90

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