O Brasil já foi um escândalo em matéria de tradução. Gerações se (de)formaram absorvendo obras desfiguradas, que não só maltratavam passagens fundamentais – ou conceitos-chaves – como traíam a qualidade propriamente literária dos autores.
Kafka, Freud e Nietzsche foram a tal ponto descaracterizados que muita gente passou a repelir versões em português de seus textos feitas antes da década de 80, quando finalmente pipocaram denúncias sobre as barbaridades até então cometidas e começaram a surgir trabalhos confiáveis.
De lá para cá, o território foi mais ou menos arejado conferindo inclusive um estatuto de nobreza à tradução, como prova a existência da coleção ‘‘Tradutores’’, publicada pela editora Hedra e cujo terceiro volume acaba de chegar às estantes. A série privilegia os clássicos e atrai a atenção não só pela seleção dos autores e obras elencados como principalmente por discutir a tradução de um escritor por outro.
O primeiro título foi ‘‘Metamorfoses’’, de Ovídio, em tradução do poeta português Bocage (1765-1805). Em seguida, veio ‘‘As Minas do Rei Salomão’’, de Rider Haggard com versão de Eça de Queiroz. Agora é a vez de ‘‘Oliver Twist’’, de Charles Dickens, com transposição para nosso idioma feita inicialmente por Machado de Assis e continuada por Ricardo Lísias.
O romance foi redigido em 1830. Ambientado em Londres, denunciava o miserável cotidiano das camadas mais pobres da Inglaterra. Machado deixou a obra inacabada. Foi convidado pelo Jornal da Tarde a verter o texto para o português em 1870, quando já angariava prestígio escrevendo críticas e comentários políticos na imprensa. Ele traduziu capítulo por capítulo a saga do pequeno Oliver obedecendo à publicação seriada de Dickens e à primazia que o gênero folhetim ostentava na época.
Sua versão, porém, seria colocada sob suspeita nos dias atuais já que não partiu do original em inglês optando por trabalhar em cima de uma edição francesa (de segunda mão, portanto). Na introdução do volume, Ricardo Lísias evita discutir o assunto preferindo exaltar as modificações feitas pelo bruxo de Cosme velho. ‘‘Às vezes, uma frase ou um parágrafo traduz toda uma página de Charles Dickens’’ – anota.
Quando Machado interrompeu a tradução, não apresentou os motivos para justificar a desistência. Deixou apenas uma carta aos diretores do jornal alegando ter sido forçado pelas circunstâncias. Mais de um século depois, o trabalho é retomado por Ricardo Lísias, um jovem escritor ainda desconhecido do grande público.
Diferente de Machado, ele se pautou pelo original inglês reiniciando a tarefa abandonada pelo autor de ‘‘Memórias Póstumas de Brás Cubas’’. Na empreitada, utilizou a edição da Wordsworth Classicas publicada em 1992 recorrendo ainda a uma edição francesa e à versão brasileira feita por Antônio Ruas para a editora Melhoramentos.
Lísias concluiu o capítulo 26, continuou a partir do meio do capítulo 28 e prosseguiu até o fim do livro. No texto de apresentação, ele salienta que procurou seguir os procedimentos (cortes e alterações) adotados pelo tradutor da primeira metade do romance, além de tentar reconstituir o vocabulário e o estilo gramatical machadianos.
O projeto, segundo ele, não apenas traz à luz um trabalho importante e desconhecido de nosso maior escritor como procura situar o tradutor ‘‘como titular de um papel criativo e sobretudo crítico’’. Ricardo Lísias, 26 anos, é autor do romance ‘‘Cobertor de Estrelas’’, que agora está sendo traduzido para o espanhol e o galego. O próximo título da coleção será ‘‘O Retrato de Dorian Gray’’, de Oscar Wilde, na versão do cronista João do Rio.
Serviço:
Coleção ‘‘Tradutores’’. Títulos publicados: ‘‘Metamorfoses’’, de Ovídio’’, em tradução de Bocage; ‘‘As Minas do Rei Salomão’’, de Rider Haggard, em tradução de Eça de Queiroz; e ‘‘Oliver Twist’’, de Charles Dickens, em tradução de Machado de Assis e Ricardo Lísias. Editora Hedra. Telefone (11) 3097-8304. E-mail: [email protected].

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