Marcos Losnak
Especial para a Folha2
Guilherme adorava o primeiro dia de aula após as férias. Também gostava do último dia de aula, antes das férias. O motivo era simples, nesses dias não havia aula: ‘‘No primeiro dia não dá para ter aula porque o nosso corpo está na escola, mas a nossa cabeça ainda está nas férias. E o último, também não dá para ter aula porque o nosso corpo está na escola, mas a nossa cabeça já está nas férias.’’
Guilherme, 11 anos, é o personagem narrador de ‘‘Minhas Férias, Pula Uma Linha, Parágrafo’’, livro infanto-juvenil de Christiane Gribel ilustrado por Orlando que acaba de ser lançado pela Editora Salamandra. Os problemas do garoto começam logo no primeiro dia de aula. A professora de português entra na sala e pede uma redação sobre as férias. Para ele, as férias nunca mais seriam a mesmas após serem transformadas em redação: ‘‘Quando a gente transforma as nossas férias numa redação, elas não são mais férias, são a nossa redação. Perdem toda a graça. (...) E além do mais, eu tenho certeza que a professora nem quer saber de verdade como foram as nossas férias. Ela quer só saber como é a nossa letra e se a gente tem jeito para escrever redação. Aqueles dois meses inteirinhos de despreocupações estavam prestes a virar 30 linhas de preocupações com acento, vírgula, parágrafos e ainda por cima com a letra legível depois de tanto tempo sem treino.’’
Em ‘‘Minhas Férias, Pula Uma Linha, Parágrafo’’ Guilherme conta como foi parar na sala do diretor da escola por causa de uma simples e inofensiva redação sobre suas férias. Expõe o terrível conflito de transformar em trinta linhas suas férias carregada de acontecimentos, repleta de futebol.
Lutando contra o tempo, escreve sobre o melhor jogo de sua vida – no qual marcou um gol de mestre. Quando recebe a redação corrigida, constata que as coisas mais importantes para ele, eram inutilidades para a professora: ‘‘As Minhas férias, que tinham sido perfeitas para mim, não chegaram nem perto de terem sido boas para a professora. Elas voltaram cheias de defeito. Faltou um esse no passe de craque do Paulinho, um acento na minha tática e a minha comemoração eu escrevi com tanta empolgação que acabou saindo com dois esses em vez de cê-cedilha.’’
Guilherme não entende muito bem o motivo das obrigações escolares se a vida é muito mais interessante quando está brincando. Nem sua mãe consegue explicar direito a necessidade das tarefas, das provas, enfim, da escola: ‘‘Minha mãe diz que é para aproveitar a escola porque depois que a gente cresce a gente fica cheio de problemas para resolver. Aí é que está. Eu ainda nem cresci e já estou cheio de problemas. Só no ano passado eu tive que resolver 187. E não foi nem para mim. Foi para o professor de matemática.’’
No final da história, sendo profundamente sincero com a professora e com o diretor, recebe uma punição pior – segundo seu ponto de vista – do que ser expulso da escola: fazer outras redações.
Em ‘‘Minhas Férias, Pula Uma Linha Parágrafo’’, Christiane Gribel (que recebeu o Prêmio Jabuti com sua obra anterior, ‘‘Histórias de um Pequeno Astronauta’’) consegue apresentar de maneira clara o foco de visão infantil. Coloca nesse foco uma questão nem sempre lembrada, a de que as crianças fazem tarefas, trabalhos e provas para os professores, não para si mesmos, para o próprio conhecimento. Geralmente não encaram as tarefas escolares como aprendizado, mas como obrigações a ser cumpridas para conquistarem liberdade. Também expõe o conflito, sutil e ao mesmo tempo determinante, entre o ponto de vista racional do professor e o ponto de vista emocional do aluno sobre a atividade escolar.
Minhas Férias, Pula Uma Linha, Parágrafo – De Christiane Gribel, ilustrações de Orlando, Editora Salamandra, 48 páginas, R$ 11,50.

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