A terra de Bob Marley
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 20 de dezembro de 2001
Eduardo Petta<bR>Agência Estado 
Impossível conceber a Jamaica sem Bob Marley, o reggae e a maconha. Se há alguma coisa que está por toda parte e é de fato uma marca nacional é o uso de maconha respaldado pelo rastafarianismo.
''Queimamos para meditar, para abrir nossa consciência. A ganja para nós não é uma droga, mas um auxílio, uma viagem espiritual e seu uso está prescrito na Bíblia'', justifica Bongo Jo, de 50 anos, ex-cozinheiro de Bob Marley e atual caseiro da residência em que Marley nasceu e foi enterrado, no vilarejo de Nine Miles, uma região montanhosa do interior.
Hoje, a casa é museu e ponto de encontro de rastafaris e simpatizantes do mundo todo, que se reúnem ao lado dos restos mortais do ''profeta'' para fumar ''ganja''. A erva é consumida em enormes cigarros confeccionados na forma de cone. Mas é bom avisar: a maconha não é legalizada, apesar de ser ritual dos rastafaris. Pela lei, quem for pego fumando, vai para a cadeia.
A maconha é utilizada por 60% da população e muita gente depende da venda para sobreviver. As plantações se espalham por toda área de montanha da ilha, onde a planta se desenvolve muito bem, e é comum vê-la crescendo ao lado de bares e restaurantes. Ninguém sabe ao certo quando seu uso começou a ser difundido, mas é provável que já fosse utilizada na época da escravidão. O principal mercado são os Estados Unidos, que é também seu mais ativo combatente. Estima-se que hoje o cultivo esteja reduzido a um terço do volume que tinha na década passada por esforços da CIA.
Mesmo ilegal, seu cheiro faz parte do perfume local e, por onde quer que se ande, em qualquer praia, cidade ou floresta, e em qualquer camada social, dá para notar a presença forte da maconha. E a criminalidade que ronda os guetos da capital do país, Kingston, considerada uma das cidades mais violentas do mundo, certamente está ligada ao tráfico.
Em Kingston moram quase dois terços dos 3 milhões de habitantes da ilha. Foi num de seus guetos, em TrenchTown, sob o zunir de balas perdidas, que cresceu e viveu Bob Marley. As letras de suas músicas contam muito da vida e do cotidiano dessas pessoas. Uma rotina que pouco mudou, controlada pelos chefões da máfia da droga e suas gangues. Lá a lei não vale e a polícia nem pensa em invadir. Turistas, então, nem devem passar perto. Seria pior que querer visitar as favelas brasileiras.
Na contramão das drogas e de toda a violência, muitos jamaicanos procuram trilhar um caminho de fé. Segundo o folclore, a Jamaica tem a maior concentração de igrejas por quilômetro quadrado do Caribe, não importa qual seja a religião. A maioria é cristã (cerca de 80%), sendo 53% anglicana. Nos sábados e domingos é marcante a presença nas ruas de senhoras de chapéus redondos, vestidos bem-comportados e a bíblia sagrada debaixo do braço, dirigindo-se aos cultos. Em meio a tanta pobreza, as igrejas funcionam muitas vezes como uma válvula de escape social. Uma luz no fim do túnel.


