A TERCEIRA IDADE NO ESPAÇO
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 26 de outubro de 2000
Carlos Eduardo Lourenço Jorge De Londrina Especial para Folha 2 
Era um roteiro que me agradava por uma razão especial: o aspecto cavalheiresco, o espírito pioneiro. A idéia de algumas pessoas, no meio do deserto do Mojave, pela primeira vez voando em velocidades nunca vistas e espatifando aviões e protótipos de foguetes. Assim Clint Eastwood abriu a entrevista coletiva mês passado no Festival de Veneza, logo após a premiSre européia de Cowboys do Espaço, a partir de hoje em lançamento nacional .
Os personagens aqui são individualistas, continuou o diretor. Se o filme fosse ambientado no mundo do cinema, seriam como a velha guarda de Hollywood. Com senso de humor malicioso, o septuagenário Clint assume o comando de uma nave espacial e de sua tripulação, o famigerado Team Dedalus, composto ainda por Donald Sutherland, Tommy Lee Jones e James Garner. Todos presentes à coletiva. É um elenco formidável, faz questão de acrescentar o ator e diretor, que está assinando seu 22º trabalho. São pessoas por quem sempre tive grande admiração, profissional e pessoal.
Frank, Hawk, Jerry e Tank formam um quarteto de top guns aposentados. Em colete de couro e atrás de exuberantes óculos escuros, eles partem para o espaço sideral um ano antes do fatídico 2001. Na verdade, a equipe Dedalus estava pronta para navegar pelo cosmos há 40 anos. Mas quando, em 58, a NASA substituiu a Aeronáutica nesse tipo de operação, o quarteto afiadíssimo foi substituido por um...chimpanzé. Pretendi que o filme fosse o mais realista possível, observa Clint. E a NASA foi de grande ajuda, colocando à nossa disposição o mesmo simulador para treinamento de astronautas utilizado em Apollo 13 e um velho e gigantesco container para se obter a ausência de gravidade. Foi nele, batizado de Vomit Cargo, que construímos parte importante de nosso set.
Até então requentando o sonho-quase-utopia de um dia rasgar as fronteiras da atmosfera, os quatro old fashion afinal vão receber o batismo. Ironia, coragem, indiferença pela hierarquia e pelo poder, capacidade de decidir a frio e de sacrificar-se sem enfase. O tempo não foi perdido, e é chegada a hora do encontro com o destino. O engenheiro espacial Frank Corvin (Clint) é chamado pela NASA para uma missão emergencial de resgate: um velho satélite russo à deriva, o sucatão Ikon, pode causar problemas quando cair na Terra em algumas semanas. Para garantir a qualidade do trabalho, ele recruta os melhores, mais rápidos e audaciosos pilotos-astronautas...dos anos 50. Depois de muito treinamento, estão com o passaporte carimbado para o infinito. Mas o que eles ignoram é que alguém, em tempos de guerra fria, reequipou o tal satélite com ogivas nucleares. Uma vez lá em cima, o melhor é confiar nos veteranos e entregar o destino da Terra a Deus.
Embora entretenimento decente, Space Cowboys não é um grande filme, algo memorável para antologias. Clint já foi bem superior com Bird, As Pontes de Madison ou com Os Imperdoáveis. Aqui ele dirige a si e seus colegas de terceira idade com mão ligeira e afetuosa, injetando (bom) humor auto-referente em aventura geriátrica que transforma o espaço em montanha-russa onde não faltam suspense e as habituais pirotecnias. Atenção para o plano final, ao som de Fly Me to the Moon. Detalhe que faz a diferença entre a burocracia no visor da câmera e o sopro da inspiração.


