‘‘Era um roteiro que me agradava por uma razão especial: o aspecto cavalheiresco, o espírito pioneiro. A idéia de algumas pessoas, no meio do deserto do Mojave, pela primeira vez voando em velocidades nunca vistas e espatifando aviões e protótipos de foguetes’’. Assim Clint Eastwood abriu a entrevista coletiva mês passado no Festival de Veneza, logo após a premiSre européia de ‘‘Cowboys do Espaço’’, a partir de hoje em lançamento nacional .
‘‘Os personagens aqui são individualistas’’, continuou o diretor. ‘‘Se o filme fosse ambientado no mundo do cinema, seriam como a velha guarda de Hollywood’’. Com senso de humor malicioso, o septuagenário Clint assume o comando de uma nave espacial e de sua tripulação, o famigerado Team Dedalus, composto ainda por Donald Sutherland, Tommy Lee Jones e James Garner. Todos presentes à coletiva. ‘‘É um elenco formidável’’, faz questão de acrescentar o ator e diretor, que está assinando seu 22º trabalho. ‘‘São pessoas por quem sempre tive grande admiração, profissional e pessoal.’’
Frank, Hawk, Jerry e Tank formam um quarteto de ‘‘top guns’’ aposentados. Em colete de couro e atrás de exuberantes óculos escuros, eles partem para o espaço sideral um ano antes do fatídico 2001. Na verdade, a equipe Dedalus estava pronta para navegar pelo cosmos há 40 anos. Mas quando, em 58, a NASA substituiu a Aeronáutica nesse tipo de operação, o quarteto afiadíssimo foi substituido por um...chimpanzé. ‘‘Pretendi que o filme fosse o mais realista possível’’, observa Clint. ‘‘E a NASA foi de grande ajuda, colocando à nossa disposição o mesmo simulador para treinamento de astronautas utilizado em ‘Apollo 13’ e um velho e gigantesco container para se obter a ausência de gravidade. Foi nele, batizado de ‘Vomit Cargo’, que construímos parte importante de nosso set’’.
Até então requentando o sonho-quase-utopia de um dia rasgar as fronteiras da atmosfera, os quatro ‘‘old fashion’’ afinal vão receber o batismo. Ironia, coragem, indiferença pela hierarquia e pelo poder, capacidade de decidir a frio e de sacrificar-se sem enfase. O tempo não foi perdido, e é chegada a hora do encontro com o destino. O engenheiro espacial Frank Corvin (Clint) é chamado pela NASA para uma missão emergencial de resgate: um velho satélite russo à deriva, o sucatão Ikon, pode causar problemas quando cair na Terra em algumas semanas. Para garantir a qualidade do trabalho, ele recruta os melhores, mais rápidos e audaciosos pilotos-astronautas...dos anos 50. Depois de muito treinamento, estão com o passaporte carimbado para o infinito. Mas o que eles ignoram é que alguém, em tempos de guerra fria, reequipou o tal satélite com ogivas nucleares. Uma vez lá em cima, o melhor é confiar nos veteranos e entregar o destino da Terra a Deus.
Embora entretenimento decente, ‘‘Space Cowboys’’ não é um grande filme, algo memorável para antologias. Clint já foi bem superior com ‘‘Bird’’, ‘‘As Pontes de Madison’’ ou com ‘‘Os Imperdoáveis’’. Aqui ele dirige a si e seus colegas de terceira idade com mão ligeira e afetuosa, injetando (bom) humor auto-referente em aventura geriátrica que transforma o espaço em montanha-russa onde não faltam suspense e as habituais pirotecnias. Atenção para o plano final, ao som de ‘‘Fly Me to the Moon’’. Detalhe que faz a diferença entre a burocracia no visor da câmera e o sopro da inspiração.

mockup