Dias difíceis para quem busca nas salas de cinema alimentação saudável e nutrientes para os neurônios. Como sempre, a entressafra de fim/começo de ano não alimenta esperanças imediatas de qualificação cinéfila. Daí o apetite não satisfeito. Melhores dias talvez a partir da próxima semana. Em vista da desertificação, um título como "A Garota na Névoa", em lançamento na cidade, surge com configuração de oásis. Apesar de sua atmosfera opressiva e às vezes com pretensões delirantes felizmente não consumadas,  é filme refrescante e motivador como alternativa para o nada. Para quem gosta de trama policial complexa e preciosista, vale uma investida. Há recompensas.

Cena de "A Garota na Névoa": filme preenche integralmente os requisitos do 'giallo', gênero literário e cinematográfico de investigação criminal cujo apogeu ocorreu entre as décadas de 1960 e 1980
Cena de "A Garota na Névoa": filme preenche integralmente os requisitos do 'giallo', gênero literário e cinematográfico de investigação criminal cujo apogeu ocorreu entre as décadas de 1960 e 1980 | Foto: Divulgação



Produção italiana, original com legendas (imaginem o luxo: até o francês Jean Reno fala italiano fluente em seu papel de psiquiatra), "La Ragazza Nella Nebia" preenche integralmente os requisitos do 'giallo', gênero literário e cinematográfico de investigação criminal e de suspense cujo apogeu ocorreu entre as décadas de 1960 e 1980. Em italiano, 'giallo' é amarelo, referencia à cor das capas amarelas das revistas 'pulp fiction' publicadas na Italia a partir de 1929.

O escritor Donato Carrisi adaptou sua novela best-seller e assinou seu filme de estreia (o que não é muito comum), recebendo em troca em 2018 o prêmio David de Donatello para diretor estreante. Mesmo sem conhecer o texto original, aqui é bastante lógico presumir que  se trata de uma adaptação fiel do livro,  dado seu relato desestruturado, com idas e vindas, no qual as informações são subtraídas do espectador até o momento justo. Isto não impede que o resultado da especulação provocada ao longo da narrativa coincida com a resolução do 'whodunit', isto é, sobre o que a trama quer realmente significar.
Uma garota de 16 anos, Anna Lou, desaparece repentina e misteriosamente em uma pequena cidade nos Alpes italianos, Avechot. O enigmático inspetor Vogel (Toni Servillo), célebre por implicar a imprensa em seus casos (para o bem ou para o mal), é encarregado de resolver o caso. Ele não demora a compreender que se trata de um mistério que está longe da simplicidade. Trabalhando contra o tempo, em meio a um frenesi mediático sem precedentes, o policial vai recorrer a métodos pouco convencionais para tentar descobrir as pistas certas em uma cidade onde há (ou não) motivos, que podem ser (ou não) obscuros. E onde os fatos são (ou não) distorcidos. E o (s) culpado (s) pode (m) ser ou não. E temos um falso culpado, elemento vital para a resolução da trama.

 O mais comum neste tipo de proposta cinematográfica de thriller de enigma e suspense é que haja uma ação exemplar da policia, na qual a busca da verdade e a necessidade de provas são as principais bases da investigação. Em "A Garota na Névoa" ela, proposta, frequentemente foge desse ideal para apresentar um detetive veterano que parece se deixar levar pelo que pode ter acontecido, fazendo o impossível para se safar.

 O autor e diretor Donato Carrisi de bobo não tem nada. Seu filme, embora sob o manto do entretenimento, além da inusitada narrativa policial também levanta questões interessantes: a ação muito ativa e muito intrometida da mídia em casos criminais; a vaidade humana (lembrada na figura do próprio diabo), ou a própria ética da pesquisa. O ponto crucial é a ideia de que a opinião pública não busca justiça, mas bodes expiatórios, monstros para colocar na cadeia. Talvez o desenrolar do filme seja aqui e ali um pouco confuso (a presença da tal irmandade religiosa é um tiro no pé, jogo de cena, folclore puro) e passe por momentos que fazem o espectador perder um tanto a direção ou esfriar seu embalo. Toni Servillo, um luxo,  demonstra novamente  enorme poder de persuasão frente às câmeras, e ao lado de Jean Renno, que faz o psiquiatra, protagoniza alguns diálogos muito estimulantes.  

A convincente ambientação é um personagem a mais, vale dizer, a névoa cumpre bem seu papel. A narrativa é ágil, embora algumas informações necesárias sejam escamoteadas, levando o espectador à surpresa ou ao engano. Carrisi é um diretor que promete.

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