Um acorde de viola é um soluço. Não fosse desse jeito, o instrumento não saberia chorar, condoído pela vítima dos versos: ''Eu te via todo dia nem assim me consolava'' e ''Quanto mais arretirava mais eu ia entristecendo/Para mim representava toda hora estar te vendo''.
O dono da letra ''Triste Hora Foi Aquela'' é João Baptista Corrêa, dividindo a dor na parceria com o neto Roberto Corrêa, mestre violeiro que, no novo CD independente ''Temperança'', acerta as contas com a própria história ao resgatar composições do avô.
É um CD que passa por vários momentos da vida do compositor Roberto Corrêa que se preocupa com a riqueza poética das canções, mas também não gosta de ver a viola maltratada: faz o instrumento chorar de alegria e tristeza em suas mãos, soluçando letras de seo João Baptista, como ''Eu Estava Arretirado'' e ''Chora Violinha, Chora''.
'''Maginei a minha vida o que era e não é mais/Um amor contrariado a saudade vem e traz/Eu te vejo é só no sonho e o sonho se desfaz'', diz um João Baptista apaixonado sobre aquele amor truncado, que se mostra e esconde, que a gente não tem coragem de confessar, mas espreme dentro do peito ou em versos como, ''Vivo triste e ando alegre dou risada sem vontade/Pra não dar de amostração que tou morto de saudade''.
Com uma trajetória de 26 anos de carreira e 16 discos solos e parcerias, Corrêa é reconhecido internacionalmente pelo trabalho de pesquisa e o virtuosismo com que acarinha a viola.
'''Temperança' traz canções com um conceito difícil de classificar, contemplando várias etapas de composições minhas. Quando você faz uma canção tem toda uma preocupação com a poesia. Tem todo um envolvimento, que é diferente do instrumental, que o compositor usa outros elementos. A canção é mais intuitiva'', explica.
Um cabedal de composições mais antigas, como as parcerias póstumas com o avô e outras mais recentes, destacando ''No Giro da Folia'', parceria com Néviton Ferreira.
Corrêa diz que se identifica com a poesia, o estilo e o jeito de cada poeta que escolhe para parceiro.
Afinidade semelhante a que tem com Fernando Mendes Vianna, Hermínio Bello de Carvalho e Flávio Ramos.
''Sobre compor música para as letras do meu avô é uma história interessante de coisas que acontecem. Sou descendente de violeiros, o que não sabia. Ao abandonar o curso de Física e me dedicar à música, uma prima minha me deu um livro conta-corrente dele com anotações de letras que fazia. Ele morreu em 1937. Fui atrás desse material perdido. Nas minhas pesquisas sobre a arte da viola sempre busquei o homem, o violeiro, quem é esse homem. Sem saber era uma maneira intuitiva de buscar o meu avô'', conta.
Atavismo que não impede Corrêa de ser contemporâneo em suas composições, que em ''Temperança'' abre as dobras do destino para mostrar as marcas que a vida deixa no artista.
Com a obstinação de quem canta ''Viola nova é burro xucro na carreira/Não tem nada de mim, não tem nada de mim/É um queira não queira, uma doma sutil'', na música ''Viola Nova'', Corrêa compõe a partir das próprias lidas.
Ao enfrentar um tumor cerebral, que começou a afetar a sua área motora, o violeiro fez novas escolhas, músicas e até casou - algo que jamais imaginou. O CD é um testamento dessa mudança.
Arrumando as tralhas e com pouca coisa para levar, sem saber direito o que fazer, o violeiro canta em ''A Morte Veio Me Buscar'', que trocou um último pedido por uma derradeira moda: ''A morte pulou do banco/E danou a requebrar/Em seguida eu ponteei/A toada de uma moda/Que falava da sodade/De um amor que foi s'embora'', desafiou o violeiro, arranjando forças no amor para mandar a malvada embora.

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