Os estudiosos da televisão nunca tiveram tanto material auxiliar para pesquisa. Pelos menos para isso serviu a festa das bodas de ouro da tevê brasileira, comemorada no ano passado e cuja repercussão continua a insuflar lançamentos no mercado editorial. O livro ‘‘Pais da TV’’ (editora Conrad), do jornalista Gonçalo Júnior, foi gestado durante a celebração.
Chega na esteira dos livros de Boni, Daniel Filho, Roberto Machado, Rixa, Cristiane Costa e outros que saltaram recentemente das gráficas. Reúne 16 entrevistas com algumas das principais personalidades de nossa cúpula televisiva. Reconstitui toda a história do veículo no país. O amadorismo dos primeiros passos, a evolução tecnológica, o anedotário de bastidores, o desenvolvimento da dramaturgia, a era dos festivais, a censura durante a ditadura militar, a influência da audiência e dos anunciantes, as relações com a conjuntura política, as tendências da programação e a importância do meio na vida dos brasileiros são alguns dos temas abordados ao longo de 400 páginas.
Gonçalo Júnior já tem pronto um segundo volume de depoimentos com outros convidados. Em ‘‘Pais da TV’’ ele sabatina Armando Nogueira, Boni, a turma do Casseta e Planeta, Dias Gomes, Dora Câmara, Fernando Faro, Georges Henry, Guel Arraes, Herbert Richers, Jorge da Cunha Lima, Max Nunes, Nilton Travesso, Régis Cardoso, Walter Avancini, Walter Poyares e Wolf Maia. As conversas foram publicadas originalmente no jornal Gazeta Mercantil, entre maio de 1998 e julho de 2000.
O leitor encontrará a trajetória dos entrevistados e as histórias vividas por eles na TV. Em algumas passagens terá diferentes versões sobre um mesmo episódio ou versões que se complementam. É o caso, por exemplo, da ‘‘descoberta’’ de Caetano Veloso. Em seu depoimento, o diretor e produtor Nilton Travesso ‘‘corrige’’ o compositor ao afirmar que o conheceu nos bastidores da TV Record enquanto Maria Bethânia (a irmão do artista) participava do programa ‘‘Esta Noite se Improvisa’’.
Caetano, por sua vez, escrevera no livro de memórias ‘‘Verdade Tropical’’ que Travesso fora o primeiro a lhe dar uma oportunidade na Record depois de encontrá-lo num restaurante que funcionava nas imediações do teatro da emissora. Já o produtor e diretor Fernando Faro, criador do ‘‘Ensaio’’ (da extinta Tupi e exibido hoje na TV Cultura), diz que foi ele quem revelou Caetano. Recorda inclusive que, anos atrás, chegou a corrigir o compositor no ar durante a gravação de um ‘‘Ensaio’’ lembrando-lhe que fora ele quem o levara a se apresentar no ‘‘Móbile’’, um programa surgido nos anos 60, antes do ‘‘Esta Noite se Improvisa’’, de Travesso.
A quem notar a falta no volume de nomes como Roberto Marinho, Silvio Santos, Gugu Liberato e Marluce Dias, o autor explica que tentou entrevistá-los sem obter êxito. ‘‘Questionários foram seguidas vezes remetidos para suas assessorias do decorrer de dois anos, com algumas promessas de respostas, até agora não cumpridas’’ – diz ele. Mas as ausências não empalidecem a empreitada, uma obra de referência inestimável para historiadores, analistas e curiosos em geral.
‘‘Pais da TV’’. Autor: Gonçalo Júnior. Editora Conrad. Tel. (11) 279.9355. R$ 45,00.

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