A teia tecendo a aranha
A história de um homem não é apenas os fatos por ele vividos e os sentimentos por ele sentidos. Parte da história de um homem é a maneira, o modo, como ele conta sua própria história. Parte da história de um homem é como ele conta a história de outro homem.
Alguns personagens, como um garoto órfão de sua paixão, podem apresentar as coisas da seguinte forma: História de um homem é sempre mal contada. Porque a pessoa é, em todo o tempo, ainda nascente. Ninguém segue uma única vida, todos se multiplicam em diversos e transmutáveis homens. Agora, quando desembrulho minhas lembranças eu aprendo meus muitos idiomas. Nem assim me entendo. Porque enquanto me descubro, eu mesmo me anoiteço, fosse haver coisas só visíveis em plena cegueira.
Outros personagens, como um narrador envolvido pelo breu da história que narra, podem dizer diferente: Vivemos longe de nós, em distante fingimento. Desaparecemo-nos. Por que nos preferimos nessa escuridão interior? Talvez porque o escuro junta as coisas, costura os fios do disperso. No aconchego da noite, o impossível ganha suposição do visível. Nessa ilusão descansam os nossos fantasmas. Tudo isto escrevo, mesmo antes de começar. Escrita de água de quem não quer lembrança, o definitivo destino da tinta.
Estes personagens estão na literatura do escritor moçambicano Mia Couto. Fazem parte do livro Cada Homem É Uma Raça que a Editora Nova Fronteira acaba de lançar. Os onze contos (estórias segundo o autor) que compõem o volume passeiam pelo sertão de Moçambique vestidos com universalidade da existência humana e seus conflitos. São história tão realistas quanto fantásticas. Caminham para a loucura ou para a morte. Caminham entre a miséria e a ausência de riquezas.
Biólogo de formação, Mia Couto nasceu em Moçambique em 1955. Trabalhou como jornalista durante a década de 70 e posteriormente se entregou a carreira de sanitarista, percorrendo as áreas mais distantes do interior do país. Escrevendo em língua portuguesa, Mia Couto transporta para seus textos um universo semelhante ao criado na obra de Guimarães Rosa. Sempre comparado ao escritor brasileiro, possui o dom de inventar palavras e transformar em escrita as nuances da oralidade de um povo. Suas narrativas são sedutoramente irrigadas pelas águas da poesia.
Em vez de dizer não conseguir, prefere dizer desconseguir. Desmeninava em vez de deixou de ser menina. A lista comporta palavras como invindável, desorfanava, amolentada, atrevivida, argumentiras, desbarrigar, desexistir, tresenrugada, respirareava, imovente, vivibundo, medonhável, multipingavam, ladrepiava, desconsumiar, condolentidão, etc.
Nas narrativas de Cada Homem É Uma Raça estão mulheres que conversam com estátuas tentando curar as cicatrizes das pedras, homens escutam sombras, meninos que nascem a partir da orfandade, viúvas que nunca firam esposas, vendedores de pássaros que através do encanto despertam o ódio. Os desencantos sempre acentuando as impressões digitais dos sentimentos.
No conto O pescador cego, Mia Couto narra a tragédia do solitário pescador que é arrastado para alto-mar por uma tempestade. Perdido, sem alimento, sem iscas para o anzol, vai definhando. Numa luta para sobreviver, resolveu arrancar um dos olhos para servir de isca para a pesca. O narrador descreve a cena da seguinte forma: E sempre é assim: o juízo emagrece mais rápido que o corpo. Foi nessa magreza que cresceu a decisão de Maneca. Puxou da faca e segurou o gesto com firmeza. Tirou o esquerdo. Deixou o outro para os restantes serviços. E espetou o olho no anzol. Era já órgão estranho, desencovado. Mas ele se arrepiou de o contemplar. Parecia que aquele olho deserdado o continuava a fitar, em magoada solidão de órfão. E assim, aquele anzol, entrando em sua alheia carne, lhe doeu como nenhum espinho pode tanto aleijar.
Conseguindo um peixe, sobrevive mais alguns dias até colocar o outro olho no anzol para nova pescaria. Decidido e cego, rema na escuridão até trombar com a terra de sua vila. De volta à família, a loucura ocupa sua existência: Desde então, todas as infalíveis manhãs, se viu o pescador cego vagandeando pela praia, remexendo a espuma que o mar soletra na areia. Assim, em passos líquidos, ele aparentava buscar seu completo rosto, gerações e gerações de ondas.
Autor de obras como Estórias Abensonhadas, Terra Sonâmbula, Raiz de Orvalho e Vozes Anoitecidas, Mia Couto apresenta um alento à tradição da arte do contador de histórias. Tudo numa época em que o próprio discernimento entra em processo de extinção, onde a memória pode ser uma faca de dois gumes: É preciso que compreendam: nós não temos competência para arrumarmos os mortos no lugar do eterno.
Os nossos defuntos desconhecem a sua condição definitiva: desobediente, invadem-nos o cotidiano, imiscuem-se do território onde a vida deveria ditar sua exclusiva lei. A mais séria consequência desta promiscuidade é que a própria morte, assim desrespeitada pelos inquilinos, perde o fascínio da ausência total. A morte deixa de ser a mais incurável e absoluta diferença entre os seres.
Os personagens que emergem dos textos de Mia Couto não se atrevem dizer que pertence a determinada raça, pertencem a si mesmos: Minha raça sou eu mesmo. A pessoa é uma humanidade individual. Cada homem é uma raça.
Cada Homem é uma Raça de Mia Couto, Editora Nova Fronteira, 192 páginas, R$ 19,00/Livraria Rosa do Povo (fone 043/321-5691).ReproduçãoA pessoa é
uma humanidade
individualMarcos Losnak
Especial para a Folha2





