A teia que prende muita gente
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sábado, 10 de julho de 2004
Fábio Galão<br>Reportagem Local 
Quem torce o nariz para histórias em quadrinhos (ou HQs, como o pessoal da área costuma chamar) vai ter que se conformar: ''Homem-Aranha 2'', que recém estreou nos cinemas de todo o mundo, é o fenômeno maior das férias escolares do meio deste ano. Nos cinemas de Londrina, na primeira semana de exibição, quase todas as sessões para a película de Sam Raimi ficaram totalmente lotadas e ostentaram filas de dezenas de metros, numa febre que não aparenta que vai baixar tão cedo.
A Folha2 acompanhou na tarde da última quarta-feira uma exibição do filme, numa das salas do Cine Catuaí. Não bastasse a badalação em torno do longa-metragem, era o dia da semana em que é cobrada meia entrada de espectadores de qualquer idade. O resultado, previsível, foi uma multidão nas entradas dos cinemas. Em conversas rápidas com as pessoas que aguardavam nas filas, foi possível constatar que o Aranha (identidade secreta de Peter Parker, interpretado por Tobey Maguire) consegue tirar de casa um público heterogêneo.
Tanto no que diz respeito à idade dos espectadores (naquela tarde, crianças de sete anos e senhores de cabelos brancos passaram pela bilheteria) quanto no significado que o filme representa para cada um. Muitos encaram apenas ''Homem-Aranha 2'' como o novo blockbuster, a grande atração da temporada, o filme que é obrigatório conferir porque todos estão comentando.
Os educadores Daniel e Giovana Schilling, de respectivamente 28 e 26 anos, assistiram ao primeiro filme, lançado em 2002, e gostaram. Mas foram ao cinema aquele dia mais pela tarde livre que tinham pela frente do que pelo filme em si. ''Foi o programa que escolhemos'', explicou Daniel. O estudante Caio César Ramos Lopes, 16 anos, e seu irmão Dênis Augusto, de sete anos, mostravam maior entusiasmo.
''Acho que vai ser melhor do que o primeiro. Meus amigos viram e recomendaram'', comentou Caio. Vontade incontrolável de ver o antológico super-herói encarnado na tela? Não é bem assim. ''Gosto de quadrinhos, mas prefiro os da Turma da Mônica. Quase não leio HQs de super-herói'', disse o estudante.
Para os fãs mais dedicados, aqueles que sabem organizar em ordem alfabética os nomes verdadeiros de todos os adversários do Homem-Aranha, talvez essa vontade de ver apenas o ''filme do momento'' pareça sacrilégio. Outros são mais compreensivos. O advogado aposentado Ronaldo Blanco, 65 anos, e sua esposa, a professora Ana Maria, 50 anos, poderiam parecer estranhos no ninho em uma fila de cinema para um filme de super-herói.
Ronaldo, na verdade, estava em casa. ''Não é porque temos mais idade que vamos deixar de gostar. Quando vejo essas adaptações dos quadrinhos para o cinema, revivo um pouco minha infância. No meu tempo, as HQs eram chamadas de gibis. Eu lia histórias de todos os super-heróis'', contou o advogado. Ronaldo comentou que na época de sua infância não havia tanto teor psicológico nos quadrinhos: os únicos problemas de Peter Parker eram colocar o Duende Verde no xadrez e voltar a tempo para levar Mary Jane (no filme, Kirsten Dunst) ao cinema.
No novo filme de Raimi, o jovem fotógrafo free-lancer é despedido de seu emprego numa pizzaria porque nunca consegue entregar as encomendas a tempo, se sente culpado pelas dificuldades econômicas da tia May (Rosemary Harris), é hostilizado pelo melhor amigo, Harry Osborn (James Franco), não consegue pagar o aluguel, suas notas na faculdade vão de mal a pior e Mary Jane está para se casar com outro rapaz. Ufa! E nem falamos no vilão, o Doutor Octopus (Alfred Molina). Nesse acúmulo de situações estressantes, Parker acaba vítima de uma brutal crise de identidade.
Ronaldo acredita que essa mudança de perfil é normal. ''Hoje qualquer criança lida desde cedo com questões existenciais, angustiantes. Acho que as HQs têm que acompanhar a evolução da sociedade, não podem ser tão ingênuas como eram na minha infância. Mas penso que alguns quadrinhos ficaram violentos demais'', afirmou ele.
A trama de ''Homem-Aranha 2'' é desenvolvida no ponto para fisgar adolescentes (na idade e na alma) pelas vísceras. A sensação de que ficar com a mulher amada é um sonho intangível, a frustração de decepcionar quem mais amamos, o sentimento de inadequação: quem já foi jovem, sabe como é. O final redentor proporciona suspiros de alívio em Parker e na platéia.
Depois de duas horas de filme, as opiniões divergem levemente (veja enquete nesta página), mas a impressão que fica é a de que é muito difícil deixar de gostar de ''Homem-Aranha 2''. Os estudantes Hugo Henrique Cristiano, 12 anos, e Felipe Augusto Pereira, 14 anos, apresentavam a típica expressão de fãs satisfeitos.
Os dois não são muito entusiastas de HQs: aprenderam a amar as aventuras do Aranha em desenhos animados. Hugo, que trajava uma camiseta do herói, viu o primeiro filme três vezes. Pretende ver o segundo pelo menos mais uma vez. ''Gostei muito, achei ótimo. A única coisa que me desagradou um pouco foram os efeitos especiais. Alguns são meio 'mentirosos', exagerados'', opinou.
Ronaldo e Ana Maria Blanco foram mais generosos ao fim da projeção. ''Gostei do final. Ficamos torcendo para eles (Parker e Mary Jane) terminarem juntos, e até pouco antes de acabar, achamos que não ia dar certo'', disse a professora. Para concluir, Ronaldo enxergou uma importância extra no filme.
''Quem vem ao cinema ver essas adaptações de HQs muitas vezes fica curioso para conhecer os quadrinhos. Isso é ótimo, porque eles se tornam uma das primeiras leituras de uma criança. Aconteceu comigo, eu amava quadrinhos na minha infância e isso ajudou a me tornar um leitor voraz'', afirmou o advogado. Quem disse que o Homem-Aranha só pode salvar vidas na ficção?


