Luiz Zanin Oricchio
Agência Estado
Com a estréia de ‘‘De Olhos Bem Fechados’’, o filme mais esperado da temporada, seria muito interessante comparar o livro que lhe deu origem e o roteiro que tiraram dele. Afinal, trata-se da última obra de um gênio reconhecido, Stanley Kubrick, adaptada de uma novela do importante autor vienense Arthur Schnitzler. O leitor provavelmente terá à sua disposição os dois textos – o original e o roteiro – num único volume. Provavelmente, porque, como informou a Companhia das Letras, há ainda uma pendência a ser resolvida entre a Warner Books, detentora dos direitos, e a editora brasileira, no que se refere à capa do livro.
A ‘‘Traumnovelle’’ (literalmente ‘‘Romance Onírico’’), traduzida no Brasil por Sérgio Tellaroli como ‘‘Breve Romance de Sonho’’, é das últimas obras de Schnitzler, nascido em 1862 e morto em 1931. O escritor fez parte daquela estupenda geração vienense que virou o século, enterrou a belle époque (com suas boas maneiras) e plantou as sementes do que seria a conturbada sensibilidade moderna. Com Schnitzler, Robert Musil, Karl Kraus, Hugo von Hofmannsthal, Rainer Maria Rilke, Franz Kafka, Hugo Wolfe, Gustav Mahler e Sigmund Freud pensaram e deram forma ao mal-estar contemporâneo.
Schnitzler, ao longo de sua obra e também no ‘‘Breve Romance de Sonho’’, elege a sexualidade como posto de observação privilegiado sobre a malaise humana. Privilegiado porque, desde Freud, se sabe que a sexualidade é mais ponto de desencontro e colisão do que de harmonia, como gosta de afirmar a ingenuidade romântica. O texto é de uma sutileza incrível. Fala de um casal, o médico Fridolin e sua mulher Albertine, aparentemente anestesiado por nove anos de casamento. Na volta de uma festa, passam a contar flertes inocentes de que foram agentes e pacientes durante a noitada. A conversa prolonga-se e alcança lembranças mais apimentadas. Albertine confessa ao marido que, nas últimas férias, havia conhecido um dinamarquês que a deixara fascinada.
Nada ocorreu entre eles. Mas ela admite que bastaria uma palavra dele para que abandonasse tudo, marido, filha, segurança, tudo por uma única noite. Abalado pela revelação, Fridolin entrega-se a uma sôfrega trip erótica, tão intensa quanto inócua porque jamais se realiza. Primeiro, com a filha de um cliente que acabou de morrer. Depois, com uma atraente prostituta. Finalmente, em uma misteriosa orgia para a qual é levado por um pianista que fora seu colega de faculdade. O descentramento amoroso de Fridolin chega ao ápice quando Albertine lhe conta um sonho que teve, no qual consumou o desejo pelo desconhecido das férias na Dinamarca.
Mais que sutil, o texto é melífluo, diabólico, pois vai enredando o leitor em uma sensualidade latente que, por não se resolver no plano material, continua intensa do princípio ao fim como uma pressão latente. A idéia (ou uma delas) que sustenta a novela é a de que a transgressão fantasiada, ou sonhada, é tão ou mais eficaz que aquela praticada. Coloca a libido em alerta e aumenta a voltagem sexual da relação. Como se o terceiro elemento interposto (o amante, real ou imaginário) tivesse o efeito de despertar um desejo esfriado pelo hábito. Parece paradoxo. Mas a natureza do desejo é ser assim mesmo, paradoxal.
Como o próprio título diz, a ‘‘Traumnovelle’’ propõe um clima onírico, como linguagem. Certas passagens parecem saídas diretamente da pena de Kakfa, mas de um Kafka lascivo, porque reprimido. A tática de Schnitzler é lançar a todo instante a dúvida no leitor: tudo isso está acontecendo no plano do imaginário ou do real? Para no fim, como estratégia, confundir um com o outro, como afirma Fridolin em sua constatação final: um sonho é sempre mais que um mero sonho. Frase que certamente poderia ser assinada por Sigmund Freud.
O risco de fazer um roteiro cinematográfico a partir de um texto desses é degradar o que é sutil na obviedade. Na encomenda ao roteirista Frederic Raphael, Stanley Kubrick deixara clara a necessidade de trazer a ação da Viena do início do século para a Nova York contemporânea. Em ‘‘De Olhos Bem Abertos’’ (Geração Editorial), relato da colaboração entre os dois escrito por Raphael depois de morte de Kubrick, lê-se um curioso diálogo. Kubrick pergunta ao roteirista se tinha achado o livro de Schnitzler datado. Raphael responde que sim, muita coisa havia mudado no relacionamento entre homem e mulher desde então, que o ciúme não era mais o que era, etc. Kubrick retruca: ‘‘Mudou mesmo? Eu não acho.’’ Acertou na mosca. Num plano superficial, tudo parece mudar rapidamente. No nível da estrutura, o movimento é mais lento, imperceptível, quase nulo.
No original o médico não transa com a prostituta por causa das próprias inibições. No roteiro, porque o celular tocou. Se a moça sofre de alguma doença maligna, ‘‘sexualmente transmissível’’, como se diz, Schnitzler insinua que se trata de sífilis. Raphael e Kubrick (que também assina o script) abrem o jogo e revelam que é Aids.
No todo, a adaptação é bastante fiel ao espírito do original. Mas Schnitzler gostava de deixar muita coisa na sombra. Escrevia num tempo em que se confiava mais na capacidade intelectual do público. Hoje, e no cinema, é diferente, mesmo para um fora-de-série como Kubrick. Tudo (ou quase tudo) tem de ser dito e mostrado. Se não, quem botou dinheiro no projeto treme de medo.
Mas, enfim, um roteiro é apenas o filme em potencial. Muito do que parece tosco e superficial no papel pode tornar-se sutil e inteligente no celulóide. Basta ser um mestre na manipulação da imagem, como Stanley Kubrick era. Ou alguém duvida?

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