O tema passa hoje mais à distancia da cinefilia. Não por nada, apenas para tentar revolver pensamentos em tempos virulentos. Nós, sazonados, temos o hábito levemente incomodo de expressar aos neófitos (leia-se mais jovens) dessa vida que, sem os avanços tecnológicos que eles têm à disposição, vivemos, trabalhamos e resolvemos bem satisfatoriamente os problemas que o cotidiano nos oferece. Também é preciso lembrar (e concordar) que muitas vezes não chegamos a bom resultado sem a velocidade deles.

O fato de Shakespeare ter escrito suas grandes obras com pena de ganso e à luz de velas não significa que a energia elétrica ou o computador devam ser abolidos – de resto, gênios como eles não nasceram mesmo para escrever à mão. É claro que escadas são ótimas para exercitar as pernas, algo que qualquer mortal habitante das alturas prediais (excluídos os reumatizados) pensa como consolo quando falta energia e mais uma vez é preciso contar degraus. E obviamente não se negam as enormes vantagens do elevador.

Shakespeare escrevia com uma pena de ganso, mas que texto, hã?
Shakespeare escrevia com uma pena de ganso, mas que texto, hã? | Foto: iStock

Quando Colombo chegou ao novo continente em precárias caravelas, desafiando tempestades, ondas, correntes e furacões, e deixando de lado o pequeno erro de acreditar que os EUA eram as Índias, não se pode dizer que ele falhou. O que também não quer dizer que um 777 deva ser substituído por uma caravela casca de noz... Muitas coisas que os habitantes de nossa problemática Terra realizaram são notáveis. No velho Egito, na antiga Roma, na China milenar. Obras deslumbrantes, de cristãos e pagãos, monumentos de poder construídos por mãos escravas, ao ritmo do chicote e ameaças de morte. Tudo bem, e tudo testemunhado pelas lentes distorcidas de Hollywood. Mas não obstante a escravidão continue, às vezes disfarçada e outras materializada em fabricas e oficinas cheias de imigrantes ilegais, não se pode negar que erguer edifícios hoje é trabalho menos terrível que naqueles tempos.

Antes não se falava em colesterol, AVC ou Alzheimer, eram apenas espessamento de sangue, síncope ou esclerose. Mas isso não significa que eles não existiam. E embora alguns veteranos de meados do século passado tenham a mania de dizer que havia menos problemas e que hoje as pessoas são muito loucas, é preciso ter bem claro que a humanidade, somente no século 20, atravessou pelo menos uma dezena de guerras, alguns holocaustos, graves crises econômicas, convulsões sociais, epidemias e pandemias, caça às bruxas, ditaduras sangrentas e ameaça nuclear quase permanente durante a Guerra Fria.

Nós, veteranos, não devemos e nem precisamos ser tentados a ignorar tudo isso, mesmo que passemos a vida sem ser diretamente respingados de horror e sangue. O que podemos e devemos fazer é contar o que aconteceu conosco e como enfrentamos tudo aquilo, muitas vezes sem as possibilidades de hoje, que de maneira alguma devem ser ignoradas e muito menos negadas. Isto não significa que se deve cruzar os braços ou amarrar com um pequeno fio de arame, como é muito comum no Brasil. Esse aspecto tem um lado negativo, que é o remendo perpétuo obtido pela lei do menor esforço; e positivo, que é afiar a engenhosidade e fazer com que o tal fio de arame se transforme em criatividade.

E às vezes, quando a adversidade nos coloca em situação de privação e nos agride com problemas sufocantes, o fato de poder reagir mais rapidamente com uma combinação de “mãos limpas” e equipamento/mecanismo/ferramenta certos pode ser um atestado positivo de que somos mais do que autômatos tecnológicos. E pouco importa se você não pode tuitar sua conquista. Você sabe, e isto é o suficiente.

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