A tecnologia e a alma brasileira
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 14 de março de 1997
Zeca Corrêa Leite Sucursal de Curitiba 
DivulgaçãoCena de Viva o Povo Brasileiro, que estréia hoje no FestivalHoje, às 11 horas da manhã, tem espetáculo na Boca Maldita. O Auto do Rico Avarento, com direção de Romero de Andrade Lima, traz ao boulevard a ingenuidade rústica e a malícia dos autos medievais. Aqui o auto é levado dentro de sua forma mais rigorosa. As demais atrações do dia Viva o Povo Brasileiro, no Teatro de Reitoria, Grand Hotel des Etrangers e No Alvo.
O Auto do Rico Avarento conta a história de um homem muito rico, proprietário de muitas terras e gado, mas a sovinice personificada. Sobre ele diz um dos personagens, não dava esmola e não ia na casa da mãe pra ela não vir na sua, lhe dando despesas.
Mendigos batem à sua porta, que na realidade é o Demônio. O fazendeiro morre e vai para o julgamento final. Aparecem nesse acerto de contas Jesus Cristo, Nossa Senhora e os anjos Miguel e Pedro.
A montagem tem as cores do folhetim e do circo. Os atores representam, tocam, cantam, dançam e brincam com a platéia, num espetáculo que usa toucheiros como o das antigas procissões.
Alegria, alegriaApesar dos pesares que ronda a vida de cada habitante deste País, ainda assim viva o povo brasileiro pela sua alma, sua tendência a querer - e ser - alegre e feliz. Viva o Povo Brasileiro, que faz hoje sua primeira apresentação no Teatro da Reitoria, vai justamente ao encontro do espírito nacional.
Em se tratando de um povo musical - além de apaixonado, lírico, contraditório, irreverente, anárquico - nada melhor que usar o caudaloso repertório para pincelar o retrato tão bem definido dessa alma que move a Nação.
Tem cantos indígenas, africanos, religiosos, folclóricos e mais Tom Jobim, Caetano Veloso, Chico Buarque, Milton Nascimento, Gonzaguinha, Edu Lobo, João Bosco e músicas inéditas de Fernando Brandt e Silvan de Oliveira. Fala-se pouco e canta-se muito, explicam os autores.
Há um fio condutor que é narrado pelos brincantes, entes poderiam ser um pouco arlequins, outro pouco cantadores. Dá-se o esboço da imagem - ou da paisagem - num espetáculo representado em meio a varas de cenário, urdimentos, cabo de aço, cordas e refletores colocados de maneira desordenada pelo palco. Seria como o teatro exposto em sua forma bruta, em contraste com a leveza das canções. Somatória de cargas emotivas.
Acertando o alvoNada de novo: a mãe cruel, autoritária gera uma filha fraca e oprimida, sem vida e sem força sob sua sombra. Viúva de um proprietário de uma fundição, o tipo perfeito da alta burguesia decadente, ela vive com a filha uma relação sadomasoquista. Estão para viajar para a casa de praia acompanhadas de um jovem escritor dramático.
Assim começa No Alvo, cartaz do Teatro do Sesc, pela primeira vez encenada no Brasil. Aliás, é a primeira vez que o consagrado autor austríaco Thomas Bernhard (falecido em 1989), é encenado no Brasil.
A tragicomédia desnuda o discurso político e cultural das classes dominantes. Discute também o papel do artista na sociedade. Com este trabalho a atriz Maria Alice Vergueiro conquistou o Mambembe-1996, na categoria de melhor atriz.
DelírioGrand Hotel des Étrangers, no Guairinha, é um espetáculo de vanguarda apresentado por dois canadenses, Jean-François Blanchard e Serge Lamirande. Num quarto de hotel um homem vive uma de suas piores crises. Ele é um escritor e no limite da sanidade passa a interagir com suas fantasias e fantasmas, com anjos e demônios.
As lembranças, desejos reprimidos, sentimentos por muito tempo guardados vêm à tona e ocupam o palco na forma de efeitos visuais. Truques de ilusionismo do século passado foram resgatados pelos criadores Michel Lemieux e Victor Pilon, que lançam mão da tecnologia mais moderna. O clima é todo ele surrealista, e o personagem atravessa os caminhos da insanidade com a revelação.
Com apresentações por todo o Canadá e Estados Unidos, esta montagem é uma das mais consagradas da dupla Lemieux e Pilon, que trabalham juntos desde 1983.
q Auto do Rico Avarento - direção de Romero de Andrade Lima, com a Trupe Romançal de Teatro. Na Boca Maldita, às 11 horas.
q Viva o Povo Brasileiro - de Bartolomeu Campos Queirós, concepção, roteiro e direção de Regina Bertola. No Teatro da Reitoria, hoje às 21h30, e amanhã às 20 horas.
q No Alvo - de Thomas Bernahrd, direção de Luciano Chirolli. No Teatro do Sesc, hoje às 21h30, amanhã às 20 horas.
q Grand Hotel des Étrangers - de Claude Beausoleil, criação de Michel Lemieux e Victor Pilon. No Guairinha, hoje às 21h30, amanhã às 20 horas. Ingressos dos espetáculos: R$ 17,00 e R$ 10,00 (estudantes).


