A TECNOLOGIA A SERVIÇO DA MÚSICA
Nelson Sato
Nunca foi tão fácil gravar discos. A tecnologia de áudio disponível hoje em dia permite a qualquer músico montar um miniestúdio doméstico para registrar seu trabalho.
Talvez por isso, um dos cursos mais disputados na programação do 19º Festival de Música de Londrina tenha sido o de Laboratório de Gravação, Edição e Masterização de Áudio, ministrado pelo londrinense Pedro Fransciscon em uma das salas da Associação Médica.
O curso, segundo ele, é inédito no País. Acho um privilégio poder oferecer esse tipo de informação aos alunos - diz. A turma de aprendizes inclui desde adolescentes com pinta de roqueiros a senhores de 60 anos. O maestro e compositor Henrique de Curitiba é um dos participantes.
Quem sugeriu a criação do curso foi a Glacy Antunes (mulher de Norton Morozowicz, diretor do Festival) - conta ele. Ela teria se entusiasmado com a idéia depois de conhecer as fases de produção dos CDs do festival, de cujos registros Franciscon colaborou nas três últimas edições.
O processo de gravação do disco do FML se repete ano a ano e inclui desde a vinda de um técnico carioca especializado na gravação ao vivo de orquestras e bandas à escolha das peças que entrarão como faixas, além do refinamento do material em estúdio com a seleção e edição final dos takes dos ensaios e apresentações (cortes, colagens, limpeza de ruídos inconvenientes, ambientações artificiais etc.).
Em geral, a capturação do áudio tem melhores resultados durante os ensaios - salienta ele. Quando os músicos estão diante do público, ficam mais tensos e acabam errando mais. Além disso, há os ruídos da platéia. Franciscon foge do perfil da maioria dos professores convidados do festival. Não tem formação musical, nem ostenta ficha acadêmica corrida. É um autodidata, com mais duas décadas trabalhando em rádio e estúdios de gravação.
Acompanhou, de dentro, a velocidade das mudanças tecnológicas no setor. No primeiro dia do curso tratei justamente da diferença entre o áudio analógico e digital - conta. Há uma diferença aparentemente simples, mas que implica numa enorme mudança de hábitos. Veja por exemplo a distinção entre uma gravação registrada em fita cassete e outra registrada com gravador digital. Em uma, você tem uma perda de qualidade a cada vez que precisar transportar um determinado trecho para outra fita. Já no áudio digital, isso não ocorre. Se você quer um trecho pode mexer ali mesmo, colando aqui e ali, transportando daqui pra lá sem alterar a qualidade do que foi capturado.
É essa transição que ocupou a primeira parte do curso. Não foram poucos os alunos que se sentiram atordoados com o excesso de informações técnicas a respeito da parafernália disponível hoje pela indústria de equipamentos e aparelhagens de áudio digital. Não por acaso, um pré-requisito para se inscrever no curso era conhecimento de Windows 95/98 e NT.
Esse é o único curso que conheço que não usa apostilas - observa ele. Apostilas são os manuais dos programas/softwares. Quem quiser, tem pegar o help do programa, traduzir ao português e ler, que é uma coisa que poucos fazem. O curso termina quinta-feira.





