- Mas, pai, não estou vendo nada disso que o senhor está me dizendo! Disse o pequeno Pedrinho fechando um pouco os olhos pensando que, se assim agisse, poderia enxergar melhor, no meio daquele monte de cores e formas desconexas, algo parecido com alguns dos objetos de seu costumeiro conviver. A idéia de ir com o pai para visitar o Museu de Arte era uma novidade causadora de grande ansiedade para um menino de tão pouca idade como o Pedrinho.
Cursando a sétima série ginasial (atualmente ensino médio) o pequenino já havia se habituado com as extravagâncias de dona Clotilde, sua professora de Educação Artística, uma senhora que adentrava na sala de aula sempre insistindo com a expressão: ''Bon jour, mes enfants!'' - como se todos estivessem entendendo o significado - e que trazia junto si todo o tipo de ''lixo'' que encontrava pelas ruas e na despensa de sua cozinha, para que, a contragosto, recortassem, rasgassem e colassem tudo aquilo em uma cartolina, tentando dar forma em tudo e depois encontrar um sentido para explicar aquilo que, para ele, não fazia o menor sentido.
Assim foram suas primeiras experiências com a tal ''arte moderna''. As aulas dessa professora eram tão envolventes para os alunos que às vezes, a excêntrica professora de grandes brincos que iam até o pescoço e de vestido carregado de vivas cores, não fazia só menção de chamar o diretor da escola, mas também a polícia! Tudo por causa do estopim que acontecia, a cada vez que ela adentrava pela porta daquela pequena sala, e dizia aos alunos que eles iriam ter ''aulas de arte''.
Ficou muito marcado para Pedrinho o dia em que ele levantou-se silenciosamente e, com um ar de extremo desânimo chegou à professora com a seguinte expressão:
- Dona Clotilde, eu queria tanto saber desenhar!
Baixando a cabeça como quem mira e lançando-lhe um olhar por sobre os pequeninos óculos, ela disse-lhe algo que nunca mais esqueceria:
- Ora meu filho, desenhar é coisa do passado! Hoje em dia não se usa figurar nada, pode parecer cafona, e outra, se quiser uma figura tire uma fotografia!
Com isso esse menino criou certa antipatia para tudo que se referisse a tal arte. Porque não poderia aprender a desenhar e pintar coisa simples como um pequeno peixe? Porque não poderia desenhar o seu gatinho de estimação, o Maneco, ou sua pipa colorida que gostava de ver deslizando por entre as nuvens? Como aquela professora poderia cobrar um bom comportamento naquela sala de aula, se ela se referia a todas as coisas frenéticas que aconteciam nas revistas, como um comportamento moderno?
Tudo aquilo trazia muita confusão na mente de uma criança como o Pedrinho, que não tinha a influência da televisão para lhe transformar o jeito de ver as coisas, como acontece com o gosto popular atual. Gostava muito de ler os jornais, pois apreciava cada charge desenhada pelos caricaturistas, e via nelas o lado cômico das políticas que aconteciam em seu país, e quando alguém lhe trazia uma figura cujo sentido era ambíguo e malicioso, ele enxergava somente a pureza das formas simples, sem maldade, que dizem somente as crianças poder enxergar.
Por isso, quando o pai insistiu em perguntar, no museu, se o filho estava conseguindo ver alguma coisa naquela confusão de cores que os quadros apresentavam, ele prontamente respondeu:
- Agora sim papai. Vejo o vestido da dona Clotilde!

MARCELO AZEVEDO é arquiteto, pintor e escritor e venceu o concurso de poemas III Ciranda de Poemas de Londrina em 2006, também obteve o prêmio de melhor intérprete e faz parte da Academia de Letras como sócio contribuinte

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