Marcos Losnak
Especial para a Folha

Alguns homens, quando percebem a sombra da morte passeando pelas redondezas do corpo, em vez de aceitarem cabisbaixos sua companhia, fazem uma espécie de festa. Uma verdadeira celebração da vida. Uma celebração da chama que ameaça empreender um longa viagem em direção ao nada.
  O escritor mineiro Roberto Drummond, ao que tudo indica, foi um desses homens. Quando morreu em junho último, aos 68 anos, vítima de infarto, estava trabalhando num romance sobre o tema. Imaginava uma história em que a morte fosse encarada como uma violação dos sonhos. Uma narrativa onde a morte não deveria ser empecilho para a felicidade.
  Concluído poucas semanas antes de Roberto Drummond morrer, ‘‘Os Mortos Não Dançam Valsa’’ está chegando às livrarias através da Editora Objetiva. O romance é narrado por um homem que procura cumprir uma promessa relativamente simples: levar a amada para conhecer o mar e dançar um valsa nas areias da praia. Para isso bastaria sair de Belo Horizonte e viajar até o Rio de Janeiro.
  O drama é que, após realizar a promessa a amada – chamada Lu – é atropelada e morre. Então, o ‘‘homem de ray-ban’’, como o protagonista é chamado, empreende uma alucinada jornada para cumprir sua palavra em nome do amor. Primeiro rouba o corpo de Lu do hospital. Depois, com o auxílio de um bruxo argentino embalsama o corpo para a viagem. Alguns feitiços devolvem a capacidade de andar e falar ao corpo da jovem falecida. Assim, Lu ganha uma sobrevida para que seu grande sonho, conhecer o mar, se realize.
  Dessa forma, com a linda Lu ao seu lado, o Homem de Ray-ban pega a estrada com destino à praia de Copacabana. Acusados de subversivos, por violar as regras da morte e da vida, são perseguido por um pelotão de policiais e militares. Então, uma perseguição cinematográfica ocorre, com os dois heróis apaixonados enfrentando o poder exercido pelas leis limitadoras da vida e sua possível felicidade. O crime subversivo do casal é mostrar ao mundo que os mortos também podem realizar seus sonhos não realizados em vida.
  Com o auxílio da mídia, transformando a fuga em espetáculo, a aventura do casal divide opiniões e cria dois pólos na população brasileira: aqueles favoráveis a que a promessa de amor seja comprida, e aqueles contra a realização do sonho. De um lado aqueles em que a vida está a serviço do amor podendo pode até mesmo superar a morte. De outro, aqueles que acreditam que os mortos devem ser sumariamente enterrados sem a oportunidade de felicidade.
  Com elementos do realismo fantástico, Roberto Drummond faz uma espécie de fábula sobre a resistência da vida sobre a morte. Aos 86 anos de idade, com a sombra da morte em seu calcanhar, criou uma história irrigada pela atmosfera do amor juvenil. Aquele amor que, em busca de sua realização, é capaz de derrubar muralhas e desafiar a própria morte.
  Embora seja mais conhecido pela autoria de ‘‘Hilda Furacão’’ (1991), romance transformado em minissérie de televisão, Drummond é um dos mais representativos nomes da literatura brasileira contemporânea. Publicou seu primeiro livro, ‘‘A Morte de D. J. em Paris’’, em 1975 – fazendo uso do gênero ‘‘pop’’. Depois vieram, entre outros, ‘‘Sangue com Coca-Cola’’ (1980), ‘‘Hitler Manda Lembranças’’ (1984), ‘‘Inês é Morta’’ (1993) e ‘‘O Cheiro de Deus’’ (2000).
  Espremendo ‘‘Os Mortos Não Dançam Valsa’’, fica evidente que o interesse do autor não é simplesmente dar voz à revolução da paixão, mas um lembrete de que todo e qualquer tipo de sonho apenas se concretiza no presente, não em sua possibilidade futura. E quando isso ocorre, deixa de ser ‘‘sonho vivo’’ para se tornar ‘‘sonho morto’’. Um verdadeiro paradoxo. E se um homem tivesse a oportunidade de, após a morte, concretizar os desejos que não realizou em vida, talvez reproduziria os mesmos ‘‘erros’’. Isso porque a vida, talvez, não seja nada mais que uma tentativa de acerto.


  ‘‘Entregue a Lu’’, insiste o Super Xerife falando pelo megafone. ‘‘Você não tem outra saída.’’
  A multidão grita para eu não entregar a Lu. Bancários em greve emprestam-me um megafone e eu respondo ao Super Xerife:
  ‘‘Que lei da vida a Lu subverteu?’’, pergunto pelo megafone.
  ‘‘A lei que condena os mortos’’, ele responde.
  ‘‘Que pecado os mortos cometeram?’’
  ‘‘Os mortos são mortos. Os mortos não têm nenhum direito. Os mortos existem para serem chorados.’’
  ‘‘Eu não vou me entregar.’’
  ‘‘Você não precisa se entregar. Você é um homem livre. Só queremos a Lu. Você nos entrega a Lu e pronto.’’
  ‘‘Por que o Super Xerife quer prender uma morta?’’
  ‘‘Ela está dando um mau exemplo aos mortos. Já imaginou se os mortos deixarem suas sepulturas fazendo reivindicações absurdas? Já imaginou se os mortos, insuflados por Lu, decidirem fazer o que não fizeram em vida? Sabe Deus o que o governo está fazendo para atender as descabidas reivindicações dos vivos! Será o caos se o governo tiver também que atender as reivindicações dos mortos.’’
(Fragmento de ‘‘Os Mortos Não Dançam Valsa’’, de Roberto Drummond)

mockup