Conhecer a literatura produzida atualmente na China é tarefa difícil para os leitores ocidentais. Isso porque, desde a instalação do regime comunista, ela permaneceu restrita ao território chinês, raramente ultrapassando fronteiras.
Assim, a literatura chinesa presente no ocidente é justamente aquela produzida por dissidentes e refugiados que abandonaram o país – após a Revolução Cultural dos anos 60 – e fixaram residência na Europa e Estados Unidos. A grande maioria dos escritores deixou a China em busca de maior liberdade de expressão.
É o exemplo de Gao Xingjin, que trocou seu país natal pela França, em 1988, e acabou sendo agraciado com o Nobel de Literatura de 2000. Entre outros nomes, está o de Ha Jin, que vem conquistando grande projeção no panorama norte-americano das letras nos últimos anos.
Ha Jin, nascido em 1956, foi um cidadão chinês padrão. Na juventude chegou a servir o Exército de Libertação do Povo. Em 1985 foi estudar nos Estados Unidos e, com os acontecimentos na Praça da Paz Celestial, em 1989, decidiu não mais retornar à China. Fixou residência nos EUA ganhando a vida como professor.
Entre seus livros (compreendendo romance, poesia e conto), ‘‘A Espera’’ ganhou notoriedade mundial ao receber o prêmio da National Book Award de 1999. O romance acaba de chegar ao Brasil publicado pela Companhia das Letras. A obra apresenta um retrato da China pós Revolução Cultural através de uma ótica reveladora: a de relações amorosas.
Em ‘‘A Espera’’, Ha Jin narra a história de um triângulo amoroso regido pelas normas do Estado. Lin Kong, o personagem principal, é um médico casado por imposição do pai com uma mulher de pés atados. Com um casamento frio, mora no hospital em que trabalha, passando apenas as férias com a esposa que reside numa pequena aldeia rural.
No hospital começa a namorar Manna, uma jovem enfermeira numa relação condenada pelos princípios do governo. Durante dezoito anos tenta se divorciar da esposa para se casar com Manna, sem nunca conseguir autorização. Durante esse tempo todo a enfermeira realiza uma longa espera pelo matrimônio. Assiste assim, a sua juventude escorrendo pelo ralo do tempo. Lin Kong, diante da situação, coloca sua possível felicidade na gaveta em nome da honestidade e da fidelidade às normas sociais e políticas.
De maneira sutil, Ha Jin apresenta como a estrutura do Estado pode fazer com que os indivíduos sublimem a paixão em nome do coletivo. Estrangulando os sentimentos mais íntimos, os indivíduos também estariam estrangulando a vida particular em favor da sociedade.
‘‘A Espera’’ é um romance que apresenta uma estrutura calculada e, ao mesmo tempo, deixa transparecer uma certa ingenuidade narrativa. Após centenas de páginas de espera, nos últimos parágrafos o autor confere um sentido mais abrangente à história narrada. Sugere que, sob as intempéries do tempo, o amor pode transformar-se em pó. E que a paixão pode ser uma ação política desafiadora de todo um sistema. Uma obra que prefere não deixar os sentidos evidentes – apenas nos detalhes.
Serviço
‘‘A Espera’’, de Ha Jin, tradução de Beth Vieira, Editora Companhia das Letras, 350 páginas, R$ 32,00.

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