A suavidade da voz vinda de Minas
Milton Nascimento afirmou numa entrevista que o Brasil é mais bem servido de cantoras que cantores. Se ouvir o disco da mineira Consuelo de Paula, Samba, Seresta e Baião, produção independente que está à venda na loja Savarin, em Curitiba, vai ter mais um motivo para alicerçar a crença.
O CD vem sendo comercializado nos shows levados por Consuelo, que está acertando uma apresentação no Teatro do Paiol. Sem ganhar as páginas dos jornais, ou qualquer tipo de divulgação, o primeiro lote de Samba, Seresta e Baião, com mil unidades, esgotou-se rapidamente ano passado. A cantora está trabalhando a segunda fornada. Meu disco é bem brasileiro, explica.
Consuelo nasceu e cresceu ouvindo as cantorias dos habitantes de sua terra, cidadezinha do interior mineiro. Fascinada pela música, participava daquilo que podia, fosse na congada, no moçambique, na fanfarra da escola. Foi para Ouro Preto, formou-se em Farmácia e trabalhou durante dez anos na profissão que não era a sua.
Em 1995 encarou de vez o desafio - deixou o balcão, viajou para Madrid, passou seis meses lá defendendo-se como cantora, e quando voltou ao Brasil estava batizada na música. Agora nem me lembro mais da farmácia. Assim como definiu-se na vida, também foi para o estúdio de gravação sabendo exatamente que disco queria produzir.
Quando achou que era hora de gravar, não passou pelas cruéis dúvidas sobre o repertório. Ele estava desenhado em sua cabeça, na voz, no coração. Eu já tinha as onze canções comigo, com o conceito definido desses três universos da nossa música: do samba, da seresta e do baião, conta a artista.
Em seu entender cada um destes ritmos traz uma brasilidade incrível e um significado muito forte. Eles resumem tudo que o Brasil tem de bom. As canções escolhidas datam de 1912 até 1997, perfazendo 85 anos do cancioneiro nacional.
Eu queria uma leitura popular das coisas populares, explica Consuelo, sem perder de vista a sonoridade. Eu queria os bandolins, violões, viola. E a percussão que define ritmicamente cada canção. Na fase de preparação do CD era comum os amigos perguntarem se não colocaria baixo e bateria entre os instrumentos. Eu queria as músicas destituídas de quaisquer artifícios, fossem comerciais ou não.
Samba, Seresta e Baião resultou num trabalho delicado, conforme sua autora. Não sou mãe que rejeita o filho; o tempo todo gosto de ouvi-lo. Ela vê seu disco como um produto de feição suave, emotiva. Isto porque trabalha com canções que estão no inconsciente coletivo. Há uma emoção latente, é como se ocorresse o reconhecimento por uma cultura ancestral, comenta.
Vender mil discos em poucos meses, ao contrário dos dois anos previstos, foi uma resposta e tanto do público. O retorno positivo é muito grande, concorda Consuelo de Paula. Mas existe o outro lado da moeda. Ao procurar uma emissora de rádio que só toca música brasileira, em São Paulo, foi informada de que seu trabalho é muito bom, mas não é radiofônico.
Como se radiofônico fosse apenas isso que está sendo ouvido nos rádios e na televisão, reclama. Foi estranho para mim saber disso, embora eu tenha consciência dos limites, até mesmo pela questão do selo, da falta de uma gravadora e a da influência que isso representa quando se divulga o trabalho. Nem tudo são trevas: seu disco está sendo bem tocado na Rádio Educativa FM 97.1, em Curitiba.Mauro FrassonA cantora mineira Consuelo de Paula mostra um trabalho popular que está furando o bloqueio do preconceito contra as produções independentesZeca Corrêa Leite





