A suave melodia dos chorões
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segunda-feira, 05 de janeiro de 1998
Ranulfo Pedreiro Londrina 
Integrantes do Clube do Choro fazem show hoje, na Casa do Papai Noel: música de qualidadeOs dedos calejados transitam com facilidade pelo braço do bandolim. Os reflexos rápidos e movimentos compassados obedecem à memória, que armazena centenas de choros interpretados durante décadas. Os mesmos dedos também revelam-se acostumados ao cavaquinho e ao violão tenor - viola americana, segundo alguns, instrumento de quatro cordas já raro nas rodas de choro.
Frederico Bellinato, o Cabeção, não tem pressa. Ajeita-se confortavelmente na cadeira, o ouvido sempre atento aos ruídos do ambiente. Aos poucos, recorda-se da infância na cidade de São Paulo. Filho de músico, Bellinato trabalhou em circo, rádio, e acompanhou, entre outros, o violonista Aníbal Augusto Sardinha, o Garoto.
Eu cheguei em Londrina em 1952, como representante de produtos farmacêuticos, vim para ficar seis meses. Mas aí notei que a cidade era uma espécie de São Paulo em tamanho reduzido. Já faz 45 anos que estou aqui, e posso dizer que esta cidade é pioneira em aglutinação de músicos de choro, comenta.
Ao lado, Roberto Guerra Netto, o Robertão, observa. Violonista desde os 14 anos, ele iniciou o aprendizado acompanhando os irmãos de ouvido. Já havia acompanhado cantores e participado de conjuntos ao desembarcar em Londrina, em 1964, vindo de Porecatu. Nesta época, Cabeção já comandava um programa sobre choro na TV Coroados. Quem fazia o violão de seis cordas era um rapaz chamado Peixoto, que foi para Cuba e me cedeu a vaga. Foi então que eu comecei a tocar choro, que é a música que executo melhor atualmente, explica Robertão.
Douglas Mayer
Hoje, Cabeção e Roberto representam uma safra de músicos que revelou intérpretes notáveis, e que contribuiu para perpetuar um estilo genuinamente brasileiro, surgido, segundo o musicólogo Mozart de Araújo, no final do século passado. Até então, a palavra chorão designava músicos populares que se reuniam em um conjunto, e não o gênero da música executada. Mas, como as melodias eram chorosas, arrastadas, o estilo herdou a alcunha.
De execução difícil - as melodias abrem espaço para a improvisação, e neste ponto o estilo é comparado ao jazz norte-americano -, o choro ainda exige atenção redobrada dos músicos, pois uma das brincadeiras prediletas nas rodas é a pegadinha, ou seja, induzir o companheiro ao erro - prática que acentua o bom humor e a descontração do estilo.
O choro foi se estruturando, e ganhou a atenção de compositores como Chiquinha Gonzaga, Ernesto Nazareth, Villa-Lobos, Pixinguinha, Jacó do Bandolim e Waldir Azevedo, entre outros. Suas composições fizeram parte do repertório do programa Musical da Saudade, na TV Coroados, que durou de 64 a 73 e reuniu, além de Robertão e Cabeção, músicos como Joaquim Rodrigues, o Albertino, no violão de sete cordas, Walmor Lima, o Gaúcho, no cavaquinho, Juliano de Mari no acordeon, Benedito Pires, o Ditinho, no pandeiro e Liberto Resta no violino.
SarauFoi em 1973, ano em que o programa acabou, que o jornalista Sérgio Cabral se uniu a Paulinho da Viola para realizar o espetáculo Sarau, no Rio de Janeiro, reunindo músicos como Déo Ryan, conjunto Época de Ouro, Elton Medeiros, o flautista Copinha e o pianista Christóvão Bastos. O espetáculo causou um grande interesse pelo ritmo, propiciando o aparecimento, anos depois, de diversos Clubes do Choro no País.
O primeiro Clube surgiu em Brasília, e o segundo em Londrina, numa iniciativa que concentrou esforços do jornalista Edilson Leal, do animador de televisão Francisco Olivieri e do médico José da Silveira Baldy. Esses músicos de choro faziam algumas reuniões no sábado à noite abertas ao público. Foi aí que surgiu a idéia de tornar esse grupo mais estável, apresentando-se em bares, restaurantes e na Associação Médica. Assim surgiu o Clube do Choro de Londrina, que possui um repertório da Música Popular Brasileira do passado, composto por choros, polcas, valsas, maxixes e outros gêneros, recorda-se Baldy, que foi eleito presidente honorário do Clube.
O desenvolvimento do choro em Londrina foi coroado com a realização, entre 30 de novembro e 3 de dezembro de 1977 - há 30 anos, aproximadamente -, do 1º Encontro Nacional do Choro, que transformou a cidade em Capital Nacional do Choro ao reunir Paulinho da Viola, Copinha, Conjunto Chapéu de Palha, Zé da Velha, Ademilde Fonseca, Paulo Moura, Conjunto Fina Flor do Samba, Quinteto Villa-Lobos, Joel do Bandolim, Altamiro Carrilho, Conjunto Noites Cariocas e o Clube do Choro de Londrina, numa promoção da Universidade Estadual de Londrina e Prefeitura.
O Clube do Choro se apresentou com Robertão, Cabeção, Juliano, Victor (saxofone), Albertino, Roberto (pandeiro) e Gaúcho. Fomos aplaudidos de pé, e também tivemos a felicidade de acompanhar a Ademilde Fonseca, lembra Robertão.
Mas, aos poucos, a febre foi passando, e o público do Clube do Choro diminuiu, junto com as apresentações. Hoje o grupo do Clube é composto por Robertão, Cabeção, Alberto Barroso (cavaquinho e bandolim), Ticão (bateria) e Pedro Moretto na clarineta. Como clarinetista, o Moretto não tem similar, é o único que lê partitura no grupo e se tornou um gigante do choro, exalta Cabeção. Nossa música é muito bem tocada, o choro é uma música muito rica, mas aqui o pessoal parece que não dá muito valor, lamenta-se Robertão, ressaltando que em breve o grupo contará com Nelson no violão de 7 cordas, instrumentista que está mudando de São Paulo para Londrina.
Uma das grandes preocupações é a continuidade do choro na cidade. Em Londrina não tem uma nova geração que possa continuar esse trabalho, como tem em São Paulo, Brasília, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Goiânia, alerta Roberto Joaquim Souza, advogado que, nas horas vagas, participa das rodas do Clube do choro tocando bandolim e cavaquinho.
O músico, que também se dedica ao samba, pretende continuar no amadorismo, mas demonstra uma preocupação com a falta de interesse pelo choro: Gostaria que fosse mais divulgado, mais difundido, para que os jovens passassem a apreciar.
Enquanto aguardam tempos melhores, os chorões se recordam dos períodos áureos. Nos idos dos anos 60, o Cabeção estava passando em frente a uma barbearia quando ouviu o som de um bandolim. Parou para ouvir e não resistiu: resolveu tocar um pouco. Impressionado, o dono da barbearia elogiou: O senhor toca bem, mas tem um sujeito que é ainda melhor, um tal de Cabeção, que toca na TV. O elogio nunca foi esquecido.
Show de chorinho acontece hoje na Casa do Papai Noel, (Praça da Bíblia, à beira do Lago Igapó) em Londrina, às 20h30m. Os interessados em contratar o Clube do Choro para shows podem ligar para (043) 339-0124 ou 324-3788.


