À SOMBRA DOS ESTADOS UNIDOS
PUBLICAÇÃO
sábado, 07 de abril de 2001
Francelino França De Londrina 
Os livros voltados para o público gay, lésbico e simpatizantes (GLS) ainda não encontraram uma verdadeira ressonância dentro do mercado literário, a exemplo do que ocorre nos Estados Unidos, o maior produtor e consumidor dessa vertente. A editora americana Naiad, por exemplo, possui mais de 400 títulos escritos por mulheres para mulheres, faturando mais de 2 milhões de dólares ao ano.
No mercado de livros, as pesquisas apontam que os homossexuais consomem mais que os heteros. E no Brasil, os títulos com maior vendagem são os dirigidos às mulheres. Entre outros motivos, as mulheres lêem duas vezes mais do que os homens e demonstram preferência por material com conteúdo de forte apelo emocional.
Os escritores brasileiros de romances, contos e literatura confessional que possuem obras publicadas sobre o universo gay são escassos. Os livros históricos e científicos, com abordagem comportamental, surgem em maior número. Devassos no Paraíso (Editora Record), de João Silvério Trevisan desponta como um dos importantes estudos sócio-antropológicos já publicados na área nos últimos tempos. O meio editorial busca a literatura norte-americana para preencher a ausência de títulos nacionais na área.
A abordagem sobre sexualidade, que traz um componente cultural instrínseco, não tem o mesmo peso para Brasil e EUA. Esse diferencial pode ser percebido nos livros lançados pela Edições GLS, com um catálogo voltado especificamente ao público GLS. O lançamento mais recente das Edições GLS é Como Agarrar um Marido Versão Gay, de Patrick Price, e se encaixa como manual de auto-ajuda. Apesar do tradutor ter abrasileirado alguns termos, situações e referências, a obra não perdeu a essência de agir dentro dos padrões politicamente corretos. É um manual de ação para homens que sonham em arrumar um marido. Literalmente uma receita de bolo de caixinha. A começar pela capa, em que um casal jovem está visivelmente constrangido, parecendo que o cachê não compensou.
O autor Patrick Price sugere para encontrar a cara-metade é aconselhável namorar com alguém mais feio; não sair com homens depilados e ensina até como aplicar corretivo de maquiagem. Em outra passagem do livro ele afirma que soma muitos pontos ter um banheiro limpíssimo. Como se valesse a pena limpar o banheiro somente quando se quer amarrar alguém. Outra contradição, mr. Price diz que a vida não é uma novela, portanto, não finja o que não é. Logo a seguir, ensina o leitor a esconder a coleção de pornôs, porque não vai ajudar a criar a imagem que você quer. Como Arrumar um Marido tornou-se na versão brasileira um motivo para dar boas risadas.
Literatura pode ser boa ou não, independentemente da obra ser destinada às leitoras lésbicas. O fato de ser feita para um público dirigido não vai redimir os pecados literários. Em Uma Questão de Amor (romance entre mulheres), Saxon Bennett ambienta seu livro em Heroy, uma pequena cidade cuja particularidade é abrigar uma comunidade de mulheres que cultuam o amor pelo mesmo sexo, numa reedição da Ilha de Lesbos. A literatura digestiva serve para a autora comungar com as leitoras histórias de sexo ardente.
Um dos melhores livros do catálogo é Diferentes Desejos adolescentes homo, bi e heterossexuais, do brasileiro Claudio Picazio. No estilo pergunta-resposta, Picazio preenche as dúvidas de jovens, pais e professores acerca do comportamento sexual dos adolescentes. O livro foi editado em 1998 e desde esse período poucos títulos chegaram às livrarias. O único escorregão de Claudio Picazio foi incluir no rol de homossexuais famosos a jovem Anne Frank (isso mesmo, aquela garota judia escondida num sótão durante a 2º Guerra). Se Anne saiu do armário foi para morrer num campo de concentração. O autor colocou as fantasias de adolescentes como rótulo definitivo de opção sexual.
No ano passado, o brasileiro Amilcar Torrão Filho lançou pela GLS Tríbades Galantes, Fanchonos Militantes Homossexuais que Fizeram História. De caráter histórico e documental, o autor conta a vida, os escândalos, os amores e conquista de homossexuais, abrangendo a Grécia Antiga, as Idades Média, Moderna e Contemporânea. Há ainda os capítulos dedicados aos índios e religiosos brasileiros. Na introdução, Amilcar afirma ter apresentado, quase sempre, apenas imagens positivas de gays e lésbicas que contribuíram para o progresso da humanidade. Isso, com o intuito de estimular o respeito e auto-estima entre os adeptos do amor entre iguais, que não costumam se defrontar com referências positivas na mídia ou nos livros de história.
No rol apresentado por Amilcar constam histórias como a de Jane Addams (Prêmio Nobel da Paz de 1931), que manteve um relacionamento de 40 anos com Mary Rozet Smith; o pai da psicanálise Sigmund Freud, que nutriu uma paixão pelo médico Wilhelm Fliess; o precursor do computador, o matemático inglês Alan Turing (1912-1954), que foi submetido à terapia de castração química e acabou suicidando-se comendo uma maçã impregnada com cianeto. O livro cita ainda que 4.419 pessoas foram implicadas pela Inquisição por sodomia, entre 1587 e 1794.


