O escritor norte-americano Ernest Hemingway (1899 - 1961) sempre fez questão de manter uma imagem de virilidade. Sempre fez questão de apresentar-se como soldado, boxeador, colecionador de armas, amante de touradas, caçador de animais e pescador de tubarões.
Como matador de bichos, em seus safáris pela África abateu dezenas de leões, gazelas, zebras, rinocerontes, macacos e leopardos. Em suas caçadas na América, pequenas aves eram seu alvo predileto. Nas águas do mar do Caribe, pescar tubarões era seu passatempo. Nas touradas espanholas, sentia prazer em ver os touros darem o último suspiro na arena. Nas rinhas de galo, delirava com o sangue nas afiadas esporas.
Para um sujeito como Hemingway, que gostava matar animais, não seria fácil também matar seres humanos? Essa indagação, completamente ficcional, é o ponto de partida do novo romance do escritor cubano Leonardo Padura Fuentes. ‘‘Adeus, Hemingway’’, que acaba de ser lançado pela Editora Companhia das Letras, é o oitavo volume da coleção ‘‘Literatura ou Morte’’ que vem publicando histórias policiais envolvendo grande nomes da literatura mundial.
O início da história narrada por Fuentes é o aparecimento de um corpo humano enterrado no sítio de propriedade de Hemingway situado nos arredores de Havana. Durante uma forte tempestade, uma das mangueiras do lugar é derrubada e, entre suas raízes, aparece um esqueleto humano. A exumação do corpo revela que a vítima foi morta com dois tiros e enterrada ali há cerca de 40 anos. A data é a mesma da época em que o escritor morava no local. Para complicar as coisas, um distintivo do FBI é encontrado junto aos ossos.
Para desvendar o caso entra em ação o detetive Mario Conte. Embora o policial, depois de 25 anos de trabalho, tenha abandonado a profissão para se dedicar à literatura, ele aceita o caso por um único motivo: é um grande admirador da obra de Hemingway. Logo no início das investigações Conte vive um dilema. Por um lado deseja que o culpado seja o autor de ‘‘O Velho e o Mar’’. Isso porque seria um duro golpe para aqueles o consideram um mito assentado num pedestal. Por outro lado, não deseja que ele seja o assassino. Isso porque o fato cairia como uma bomba em sua imagem, desviando a atenção daquilo que realmente merece respeito: seus livros.
Em ‘‘Adeus, Hemingway’’, Leonardo Padura Fuentes ressuscitou o tenente Conde que havia descartado após publicar quatro livros, entre 1990 e 1997, protagonizados pelo personagem – ‘‘Passado Perfeito’’, ‘‘Ventos de Quaresma’’, ‘‘Máscaras’’ e ‘‘Paisagem de Outono’’. No Brasil apenas um deles foi publicado, ‘‘Máscaras’’, também pela Companhia das Letras. O autor é o primeiro escritor a integrar a coleção ‘‘Literatura ou Morte’’ que possui comprovada experiência no gênero policial.
Paralelo às investigações de Conde em saber se Hemingway é realmente culpado pelo crime, Fuentes apresenta episódios biográficos do escritor. Dados que, por um lado comprovam o seu envolvimento no assassinato e, por outro, derrubam a tese de sua culpa. Uma das dificuldades em encontrar a verdade está justamente nos 40 anos de distância entre a descoberta da ossada e o assassinato. Quase todas as possíveis testemunhas já faleceram e, as que ainda vivem, mantêm uma espécie de pacto de silêncio.
Durante seus últimos anos de vida, Hemingway viveu uma verdadeira paranóia de estar sendo perseguido por agentes do FBI. Em suas constantes estadias em Havana, via policias nos lugares mais absurdos e improváveis. Essa paranóia foi um dos motivo que levaram o lendário caçador viril ser submetido a várias sessões de eletrochoques acompanhadas de doses cavalares de tranquilizantes.
A hipótese de Conde é de que, nesse período de paranóia, o escritor teria executado um agente de verdade, um policial de carne e osso que o espionava no sítio de Havana. O detetive chega até precisar o dia do assassinato, que coincide com a partida de Hemingway para os Estados Unidos onde, após alguns meses, cometeria suicídio.
Em ‘‘Adeus, Hemingway’’, Fuentes mistura realidade e ficção. Mas o grande peso da narrativa é pautada pela ficção. A discreta vedete da história, por exemplo, é uma calcinha preta de Ava Gardner. A musa, durante a juventude, esqueceu a peça na beira do sítio cubano de Hemingway.
O romance de Fuentes é o primeiro título da coleção ‘‘Literatura ou Morte’’ que se encaixa genuinamente no gênero policial no sentido clássico. Outros romances publicados pela coleção – de autoria de escritores como Rubem Fonseca, Moacyr Scliar, Luis Fernando Verissimo, Bernardo Carvalho, Ruy Castro, Alberto Manguel e Leandro Konder – fizeram uso das características do gênero para criar uma literatura mais ampla e ao mesmo tempo distante dos tradicionais atos criminais, seus desdobramentos e a apoteose da resolução.
• Adeus, Hemingway - De Leonardo Padura Fuentes, Editora Companhia das Letras, tradução de Lúcia Maria Goulart Jahn, 176 páginas, R$ 21,00.

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