À sombra do autoritarismo
“A Tabacaria”, produção europeia ainda em exibição na cidade, narra um drama na Viena entre os sonhos de Freud e o pesadelo de Hitler
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 01 de outubro de 2019
“A Tabacaria”, produção europeia ainda em exibição na cidade, narra um drama na Viena entre os sonhos de Freud e o pesadelo de Hitler
Carlos Eduardo Lourenço Jorge - especial para Folha 2 

A Segunda Guerra Mundial e os fatos que a precederam e/ou sucederam seguem sendo fontes inesgotáveis de livros, filmes e peças teatrais. Ano passado, o diretor austríaco Nikolaus Leynett adaptou o best-seller “Der Trafikant” (O Vendedor de Tabaco), que seu conterrâneo Robert Seethaker escreveu em 2012. No romance – e no roteiro – Franz Huchel é um adolescente vivendo no interior da Áustria em 1937. Ele é enviado pela mãe para a capital, a fim de ajudar um velho amigo dela, Otto, na loja onde vende tabaco. Entre os clientes está um neurologista de fama, o já idoso Sigmund Freud. O jovem Franz e o médico e psicanalista se aproximam e se tornam improváveis amigos: Freud se tornará uma espécie de mentor para o adolescente, alguém que vive transtornos próprios da idade, como o primeiro amor.
Mas os tempos são difíceis. Neste momento, a Alemanha anuncia a invasão da Áustria. E a aparente calma urbana de Viena não consegue mais disfarçar o ambiente de tensão, sob o qual o antissemitismo e a violência crescem e se tornam mais e mais visíveis a cada dia. Em paralelo, caminha a narrativa sobre o não menos complicado processo de amadurecimento de Franz, entre amores, sonhos freudianos e puros charutos cubanos, os preferidos de Freud. Esta receita é bem administrada pelo diretor Leynett.
A primeira boa noticia sobre “A Tabacaria” é que não é um filme sobre práticas nazistas habituais. Ou melhor: não cai nas rotinas, práticas e estilos mais déjà-vu que via de regra empobrecem as tramas. Senão vejamos: o personagem Franz conduz o espectador pelos descaminhos de uma sociedade dividida, perseguida pelo totalitarismo. E sem precisar visitar trincheiras ou campos de concentração. Ele faz isso através das brigas que testemunha ao seu redor, provocadas pelos jornais do nacional-socialismo, pelas pichações na fachada da tabacaria ou pelo aparecimento de bandeiras vermelhas com suásticas.
O próprio Hitler é uma ameaça intuída, mas não vista na tela, um fantasma que se infiltra nas conversas. O roteiro e a direção de Leynett entendem que você não precisa de cenas de abuso da Gestapo para sugerir o clima aterrorizante que precedeu a tempestade. Para isso ele só precisa de um cabaré que, no inicio, começa parodiando o Führer para depois contar piadas de judeus. Não há melhor resumo do horror do que esta casa noturna, que abriga bailarinas imigrantes ilegais, entre elas a jovem tcheca Aneska, que causa a primeira dor de amor em Franz.
"Não é necessário compreender a água para entrar nela”, diz o Dr. Freud aconselhando o protagonista Franz quando ele confessa que quer ter uma namorada, mas que não conhece as mulheres. A relação amistosa entre os dois personagens corre por conta da paixão que o psicanalista tem por preciosos charutos enrolados nas coxas de trabalhadoras em Havana, e vendidos por Franz. E os simbolismos não param por aí, com sonhos que mergulham o jovem em águas turvas; outros de certa irritante obviedade, como a recorrente aranha que anuncia o avanço da ideologia nazista ou mariposas mortas para sugerir o fim das liberdades democráticas imposto pela Alemanha à Áustria.
No elenco, impossível não destacar o grande Bruno Ganz (o Führer em “A Queda: Os Últimos Dias de Hitler”) na pele de Freud e pela última vez demonstrando sua precisão suíça ao oferecer um olhar emocional com discretos e finos matizes. Trabalho póstumo à sua altura: morreu em fevereiro deste ano.


