Quem mora em Curitiba e quiser ouvir dois minutos de poesia, numa narração instigante, tem que sintonizar hoje a Rádio Educativa FM 97.1, perto das onze da noite e esperar. Quando o relógio chegar exatamente às 22h58 entra no ar o programa ‘‘Antologia Poética’’, com a voz dura e metálica de Jack Shadow evocando palavras como se fossem lançadas à impiedade dos ventos noturnos. A sensação é de um raio, um trovão na noite – para depois voltar a imperar a normalidade.
Somente às quartas-feiras Shadow ocupa o microfone da emissora e destila seus textos torturados. Envolto em mistérios, ele não se dá o prazer de se aproximar dos fãs que vão desde tímidos ouvintes, jovens roqueiros até a escritora Regina Benitez, autora de belíssimos contos, que depois de ouvir um desses flashs, passou semanas tentando localizá-lo. ‘‘Não conseguia acertar o horário’’, desculpa-se.
Cartas, telefonemas, fax chegam à Educativa FM endereçadas a Shadow, em sua maioria trazendo poemas para serem lidos por ele. Jack, porém, mantém-se numa espécie de isolamento à moda de Dalton Trevisan: não dá entrevistas, evita fotografias, esconde-se nos escaninhos da cidade. Se tem amigos, ninguém sabe. ‘‘Eu sou o único amigo dele’’, se vangloria o produtor do programa, Cyro Ridal. ‘‘A gente se conheceu em 1991, quando criei o programa ‘Caleidoscópio’ na Educativa’’, explica.
Foi aí que o moço apareceu com um calhamaço de textos de Rimbaud, Artaud, Rilke, Octavio Paz. Conversou inicialmente com Pedro do Rosário, co-produtor do ‘‘Caleidoscópio’’, morto no ano passado, e este encaminhou-o a Ridal. Foi assim que surgiu o espaço poético, para ser realizado uma vez ao mês. O primeiro da série chamou-se ‘‘Corações Solitários de Sexta à Noite’’. Surpresa maior foi o resultado de Shadow lendo os textos. ‘‘Ficou melhor que os profissionais da rádio, aí o adotamos como apresentador.’’
Depois de seis anos no ar – três na Educativa e outros três na Estação Primeira – ‘‘Caleidoscópio’’ chegou ao fim, mas a essas alturas Jack Shadow tinha se tornado espécie de marca enigmática no circuito roqueiro da cidade. Como a (possível) timidez deu certo, o cidadão achou por bem esconder-se atrás do nome. Virou personagem obscuro que já fez propaganda até de shoppings curitibanos, mas sem expor o rosto.
‘‘A voz é a sua identidade’’, comenta Ridal. Ele e Shadow escolhem os textos que vão ao ar. ‘‘Às vezes a gente se desentende, mas costumamos ter os mesmos gostos’’, afirma. O produtor confessa não entender de literatura. ‘‘Como sou leigo na área, tenho uma relação de identificação pessoal com o texto. É ver, gostar e fazer. Se tocar o meu coração, vai tocar o coração do ouvinte, que é tão leigo quanto eu.’’
Como Shadow surgiu num programa de rock, até hoje seu nome é incensado pela garotada. Quem conhece Ridal, aponta-o como sendo o ‘‘sombra’’. ‘‘Tem vezes que ele está próximo, e a garotada não percebe. Tenho vontade de apontar, mas se fizer isso ou ele morre do coração ou me mata’’, brinca o produtor.
Por que Cyro Ridal não dá pistas sobre o moço? Ele dá, depois de certa insistência: ‘‘Nos dias de realizar o programa, Jack se afasta das pessoas, parece um culto dele com a poesia ou com seus pesadelos, sei lá. É um sujeito introspectivo, calado, que nunca perde a sobriedade.’’ Veste-se com roupas escuras, ‘‘tem ares de quem vive no tempo vitoriano’’. Então, seria um inglês? ‘‘Não posso dizer, mas ele caminha por vielas escuras, entra na escuridão e some.’’

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