Não poderia ser mais apropriada a inclusão de ‘‘Revelação’’ (veja a programação de cinema na página 5) na mostra paralela veneziana ‘‘Sogni e Visioni’’. Um filme sobre fantasmas, na tela e fora dela. Espectros na história e a pairar como inspiração, Hitchcock e seu compositor preferido, Bernard Herrmann, assombram os 130 minutos deste exercício de múltiplos estilos onde o que não faltam são citações, de ótimas e puras fontes. Que afinal não desmerecem os originais e servem como decente reciclagem de um e até mais gêneros.
Harrison Ford e Michelle Pfeiffer formam um casal aparentemente feliz, numa bela casa à beira de um lago em Vermont. Ele, o Dr. Norman (a primeira pista), cientista e pesquisador genético de renome. Ela, Claire, instrumentista de talento que deixou o violoncelo para se dedicar ao marido e à filha do primeiro casamento, agora deixando a casa para ingressar na universidade. Mas algo não vai bem: coisas muito estranhas estão acontecendo à volta de Claire, enquanto Norman passa o dia no laboratório. Na casa vizinha, o comportamento de um outro casal parece antecipar uma tragédia, talvez um crime (a segunda pista, falsa, na citação de ‘‘Janela Indiscreta’’). Na casa, Claire ouve ruídos estranhos: portas são abertas sem ninguém por perto, porta-retratos caem e se quebram por nada. Por conta e risco, e já sobressaltada, ela parte para investigar alguns indícios que descobre - ou são propositalmente deixados.
E o filme decola para uma viagem arrepiante, com um questionável repertório de sustos um tanto além da conta, mas ainda assim mantendo clima e ritmo que deixam retesada ao máximo a vigilância do espectador. Quase exatamente como Hitchcock fazia há cerca de meio século, com uma vantagem para o inventor do modelo: ele trabalhava de mãos limpas, desarmado, sem a tecnologia computadorizada deste fim de milênio, somente com a reconhecida capacidade de manipular a tensão e torná-la quase insuportável a partir de elementos que o diretor Robert Zemeckis (‘‘Em Busca de Uma Esmeralda’’, ‘‘De Volta para o Futuro’’, ‘‘Forrest Gump’’) reconhece e venera. O que certamente o velho Hitch não endossaria em nenhuma hipótese é a presença aqui do sobrenatural, da fantasmagoria. Ele, como de hábito, se contentaria apenas em buscar explicações psicológicas para o comportamento da mente criminosa. O terror, como se sabe, acontece sob a aparência mais normal, à luz do dia. E fantasmas são as pessoas que libertam de seus inconscientes.
A trilha sonora de Alan Silvestri, a princípio contida, a partir de determinado momento devassa despudoradamente as partituras de Bernard Herrman, especialmente a estridência dos acordes de ‘‘Psicose’’. O resultado, ainda que previsível, não compromete.
No elenco, Harrison Ford parece menos à vontade que Michelle Pfeiffer, que transita numa modulação mais exposta e por isso mais sutil. Embora o trailer que circula há algumas semanas nas salas brasileiras seja um inoportuno monumento à obviedade, esvaziando quase inteiramente as surpresas que o filme vai aos poucos revelando a partir da segunda metade, é de bom tom manter um certo sigilo sobre o desenrolar da trama de ‘‘Revelação’’, um filme que diverte com aceitável dose de talento.

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