À sombra de Chico Science
Nelson Sato
O culto a Chico Science virou praga. O fantasma do artista parece acanhar os discípulos, transformando-se em fator de atraso do próprio movimento que ele ajudou a fundar em Recife no começo da década.
Com as exceções de praxe, a maioria das bandas surgidas na esteira do mangue beat não passa de constrangedora clonagem da Nação Zumbi, que Chico liderou até morrer em trágico acidente automobilístico há dois anos. As imitações proliferam na coletânea Recife Rock Mangue II, lançada pelo selo independente Caranguejo Records.
O disco reúne dezoito bandas pernambucanas da nova safra, garimpadas a partir de 58 demo-tapes enviadas aos produtores Elcy Oliveira e Cinval Cadena, dois heróicos divulgadores da música local. O grupo Sistema X é um dos destaques do CD, revisitando a black music setentista na faixa Nem tudo é como você quer, na qual costura bases de funk e vocais de hip hop.
O som da velha escola (old school), tendência em alta no rap internacional, marca também o trabalho de Spider e a Incógnita Rap na sacolejante Incógnita Rap, pontuada por scratches e seção de sopros. Em outro extremo, guitarras e psicodelia (com direito a mantra indiano) de pop britânico comparecem em Monsieur Cannibale, da banda Umbigo de Adão.
Também fugindo dos clichês associados ao mangue beat, a cantora e tecladista Stella Campos combina o acústico e o eletrônico em Se você for, onde você for, canção incluída em seu recém-lançado CD Céu de Brigadeiro. As demais participações decepcionam, mimetizando cacoetes de Chico Science, seja no jeito de cantar ou no riffs de guitarras e levadas rítmicas.
A banda Sheik Tosado, não incluída na coletânea, é outra que não escapa da influência em seu disco de estréia Som de Caráter Urbano e de Salão(Trama). Elogiada após sua participação no Festival Abril Pro Rock de 98, a banda não convence em disco revelando-se mais uma promessa frustrada. A produção ficou a cargo de Carlo Bartolini, que recentemente assinou trabalhos para as bandas Ira! e Pavilhão 9.
Faixas como Vinheta para Jackson, Repente Envenenado ou a que dá nome ao grupo comprovam a onipresença do mito Chico Science. Há tentativas de ir além acelerando a bateria e distorcendo as guitarras, como na thrash metal La Ursa (com vocais de repente) e na fusão de frevo e hardcore em Hardcore Brasileiro - mas quem ainda tem paciência para misturebas?
O trio Eddie, pelo jeito, não tem. Seu disco Sonic Mambo (Roadrunnrer) destoa da cena, parecendo banda do interior paulista com suas guitarras indies picantes e harmonias à la Pixies. Vale lembrar que o grupo já tocava nos palcos de Recife bem antes de começarem a falar em caranguejos com cérebro, antena parabólica na lama, vibrações do mangue e outras imagens divulgadas nos manifestos do mangue beat.
A banda foi criada em 1989. O único remanescente da época é o vocalista e guitarrista Fabio Trummer, que às vezes soa como um Marcelo Nova dos primeiros tempos do Camisa de Vênus. Sonic Mambo, seu primeiro disco, foi gravado no estúdio Long-View Farm em North Brookfield, no estado de Massachusets, EUA.
A produção foi dividida entre a banda e o norte-americano Tom Soares, cujo currículo inclui sessões de estúdio para as famosas Biohazard, Shelter e Dog Eat Dog. Lutem pelo direito de festejar / Festejem o direito de lutar, prega a canção Festejem, uma das mais empolgantes do CD ao lado de Videogamesongs, Buraco de Bala e O Dia Passa. Mangue beat também é indie-rock.Três discos trazem a nova safra de bandas do Recife que não passam de mero papel carbono da Nação Zumbi
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