À sombra das palavras
PUBLICAÇÃO
sábado, 15 de fevereiro de 2003
Marcos Losnak<br>Especial para a Folha 
Em determinado momento da existência, todo escritor precisa parar, sentar num canto e refletir sobre seu trabalho. E para pensar sobre o ofício, também precisa refletir sobre a literatura como um todo, sobre a trajetória da arte através da história da humanidade. Assim, o escritor pode investigar a relação com a natureza dos escritos e todas suas implicações.
Uma investigação nesse sentido pode unir os dois pólos do universo literário: o processo interior e o processo exterior da escrita. O escritor argentino Ernesto Sabato, no início da década de 1960, chegou a esse momento de sua vida. Sentou num canto e refletiu sobre experiências próprias com as palavras. Procurou responder questões que desfilavam em sua mente.
O resultado desse processo resultou no livro O Escritor e Seus Fantasmas, publicado originalmente em 1963 e que a Companhia das Letras acaba de lançar no Brasil. Nele, Sabato estilhaça a forma do ensaio em busca de algo maior que uma simples discussão estéril. A partir da experiência como romancista, reflete sobre as principais vertentes literárias e filosóficas que influenciaram a ficção produzida no século 20.
O Escritor e Seus Fantasmas é formado por capítulo sucintos sempre a serviço da vida existente dentro da literatura não a serviço de teorias limitadoras. Alguns capítulos possuem poucas linhas, outros algumas páginas. Todos escritos de maneira lúcida, sempre a partir visão ampla e desmitificadora de Sabato. Podem ser lidos em qualquer direção linearmente ou alternados pois são reflexões independentes que trafegam com liberdade de raciocínio.
Um das questões discutidas por Sabato, está a influência exercida pela excesso de razão do cientificismo no romance ocidental. Uma influência que, apesar de sua força cultural, não conseguiu engessar a literatura. Isso porque, a literatura sempre trabalhou muito mais com dubiedade e particularidades do sentimentos humanos do que com a lógica universal.
Nesse assunto, muito mais explorado por filósofos do que por artistas, Sabato tem ampla propriedade. Antes de se dedicar à carreira de romancista, foi doutor em física e ocupou cargo destacado no Laboratório Curie, na França, de pesquisas atômicas. A desilusão com o processo de desumanização da ciência, é inversamente proporcional às suas críticas contra aqueles que consideram a presença do mal na literatura com desumanização do romance.
Resumindo, em O Escritor e Seus Fantasmas Sabato demonstra como os romances são construídos com vida, e não apenas com idéias e teorias. Toda literatura reflete o tempo em que foi criada, toda literatura é necessariamente humana, com suas dores e angustias. Ou seja, ela é reflexo imediato tanto da alma como do corpo dos homens, muito mais do que seus princípios racionais e lógicos.
Muito mais que uma visão da literatura de um escritor que se dedicou à palavra de corpo e alma e que atualmente se dedica à pintura é um testemunho aberto sobre a fé no romance e seus sentidos. Utilizando conhecimento histórico e estético, deixa claro que essa fé é fruto do entendimento de que a experiência humana é muito mais complexa do que a superfície revela.
Nesta vida única e limitada que temos, a cada instante nos vemos obrigados a escolher um único caminho entre os infinitos que se apresentam. Eleger essa possibilidade é abandonar as outras ao nada. Essa possibilidade que nem sequer sabemos até aonde nos vai levar, pois nossa visão de futuro é precária e sentimos o mesmo desassossego que o navegante que precisa passar entre escolhas perigosíssimas em meio à névoa e a escuridão. Temos certeza apenas de que mais adiante está a inevitável morte, o que precisamente torna mais angustiante nossa escolha, pois faz dela algo único e irreversível. Escolha, portanto, que parece inventada pelo demônio para nos atormentar, pórtico, como presumimos, de uma quase certa frustração, o caminho da desilusão e do fracasso. E, para maior escárnio, por causa de nossa própria vontade.
Na ficção, ensaiamos outros caminhos, lançando ao mundo personagens que parecem ser de carne e osso, mas que pertencem somente ao universo dos fantasmas. Entes que realizam por nós, e, de algum modo, em nós, destinos que a vida única nos vedou. O romance, concreto mais irreal, é a forma que o homem inventou para escapar desse encurralamento. Forma quase tão precária como o sonho, mas, ao menos, mais voluntariosa.
Essa é uma das raízes da ficção. A outra talvez seja a ânsia de eternidade que tem a criatura humana; outra ânsia incompatível com sua finitude. A busca do tempo perdido, o resgate de uma infância qualquer ou de alguma paixão, a petrificação do êxtase. Outro simulacro, em suma.
(Fragmento de O Escritor e Seus Fantasmas, de Ernesto Sabato)


