À sombra da genialidade
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 10 de junho de 1998
Isadora Andrade Cult Press 
ReproduçãoPicasso: sua relação com a fotógrafa Dora Marr é o principal tema do livro de James LordEm 1945, James Lord era um jovem homossexual impetuoso e sem um propósito de vida. Decidiu sair dos Estados Unidos, sua terra natal, e partir rumo a Paris. Com uma prioridade: conhecer o pintor Pablo Picasso. Tanta pretensão o levou não só a conhecer Picasso, como a se tornar íntimo do artista. A disposição de capitalizar seu contato com Picasso e com suas amantes inspirou James Lord a escrever Picasso e Dora (Ediouro/383 páginas/R$ 32), um relato do amor vivido entre o criador de Guernica e uma fotógrafa e também pintora.
De todas as mulheres que Picasso teve, Dora Maar foi, aparentemente, a mais importante. A amante foi várias vezes retratada por Picasso. Além de alguns desses desenhos, Picasso e Dora traz fotos do pintor em seu ateliê e vários registros do autor com o artista. Quando James conheceu Picasso, a relação do pintor com Dora já estava no fim. Mesmo assim, foi testemunha de várias situações que envolveram não só os amantes, mas a classe artística parisiense. Assim, em Picasso e Dora, o autor faz também um relato com riqueza de detalhes das experiências vividas com personalidades como o cineasta Jean Cocteau e o psiquiatra Jacques Lacan.
Apesar da proposta inicial do livro ser retratar o romance de Dora e Picasso, James não perde nenhuma chance de lançar um foco de luz sobre sua própria trajetória. Obscura e insignificante, a vida de James - constantemente enfastiado e à procura de belos homens na cidade luz - não instiga muito. Agente do exército americano, ele chega à Paris para ouvir os depoimentos de ex-oficiais nazistas e acaba achando tudo muito sem graça. Impressionado com a súbita amizade com o pintor, décadas mais velho, James passa a dedicar-se a uma vida de glamour. Vai a bares e cafés, conhece várias personalidades e consegue entrar no mundo dos artistas e intelectuais.
Mesmo frequentando o meio artístico, as obras de Picasso não pareciam ter tanta relevância para o jovem americano. Numa época em que obras de arte eram vendidas no mercado negro a preços baixos, James não pensou duas vezes em repassar, a preço de banana, alguns desenhos dados pelo amigo.
Mesmo sendo uma indisfarçável ode ao próprio autor, Picasso e Dora traz bons momentos do cotidiano do pintor espanhol. Se não pôde fazer observações inéditas sobre o comportamento de Picasso, pelo menos James Lord contou com uma excelente memória para narrar situações interessantes. Alguns momentos chegam a ser divertidos. É incrível como James foi pretensioso ao conhecer o artista. Apareceu na sua casa e disse que só queria vê-lo de perto. Da segunda vez, levou um bloco e um lápis para que Picasso fizesse seu retrato. Achou pouco e da terceira levou uma cartolina. Na quarta visita dormiu no sofá do anfitrião e derrubou uma pilha de quadros do artista.
O livro não explicita como um jovem tão desinteressante quanto James Lord conseguiu atrair a atenção de Picasso. Mas dá pistas que o pintor sentiria atração física por ele. Essa seria até uma explicação plausível, já que o narcisista autor de Picasso e Dora não tinha dotes para as artes e seu maior interesse eram as reuniões sociais. Mas, para o ego dilatado do autor, o que importa é que ele teve a chance de conviver com um dos mais criativos artistas da História da humanidade. De acordo com essa ótica vaidosamente distorcida, cada beijo no rosto e aperto de mão entre James e o Picasso ganha em Picasso e Dora um parágrafo exclusivo.


