A soma de todas as artes
PUBLICAÇÃO
sábado, 01 de junho de 2002
Katia Michelle<br>Equipe da Folha 
Evento realizado pela Secretaria de Cultura do Estado transformou-se num encontro de criatividade que reuniu 95 artistas plásticos em Faxinal do Céu
Faxinal do Céu - Tome cuidado por onde caminha, pois você pode estar pisando numa inexorável obra de arte. Esta era a principal recomendação durante o Faxinal das Artes, evento promovido pela Secretaria da Cultura em Faxinal do Céu (Oeste do Estado), que encerrou anteontem. Durante duas semanas, 95 artistas se dedicaram a pensar, discutir e fazer arte. O resultado apareceu em centenas de produções artísticas - ainda que algumas de gosto duvidoso - dezenas de debates, palestras (com algumas baixas na programação, como é comum em eventos desse porte) e uma abertura para uma discussão infindável sobre os caminhos da arte contemporânea, com exemplos práticos para serem analisados espalhados pelos mais inusitados locais.
Assim como na Semana de Arte Moderna, em 1922, novas concepções artísticas começaram a despontar e a fazer algum sentido no cenário das artes plásticas atual. O difícil foi definir se uma artista caminhando com seu cachorro agasalhado era uma performance ou não. Se uma lata de lixo era apenas um recipiente para jogar resíduo ou uma instalação. Na ânsia de produção, de revolucionar o espaço ou mostrar um trabalho de destaque, a quase centena de participantes abriu novas frestas para discussão, mas nem todos conseguiram apresentar um trabalho consistente.
Ao analisar as produções espalhadas pelos milhares de quilômetros quadrados de Faxinal do Céu, ou devidamente abrigadas nos quase 100 chalés ocupados pelos artistas, o curador paranaense do evento, Fernando Bini, constata que não foi dessa vez que a tendência que utiliza exaustivamente vídeos e instalações, fortemente presentes na vertente atual da arte, foi substituída. Ainda se usa esse recurso e vai se usar até o esgotamento, diz. Nos trabalhos apresentados, constata Bini, a grande maioria dos artistas optou por aliar a fotografia, o vídeo e a música ao trabalho de escultura ou pintura. As experiências estão sendo feitas. Vai chegar um tempo que as tendências vão se estabilizar prevê Bini. Mas segundo ele, o evento proporcionou uma mudança para lá de interessante no cenário artístico atual, que foi a ocupação do espaço como obra de arte.
Além dos materiais pedidos, trazidos ou conseguidos, os artistas tiveram à disposição um local paradisíaco para utilizar tanto como inspiração ou como pano de fundo para suas obras. Faxinal do Céu é uma vila construída pelos operários que trabalhavam na Usina de Faxinal de Areia na década 70. A estética da vila pode ser comparada ao seriado do filme Pleasantville - A vida em preto em branco, uma fábula sobre utopia e afirmação de realidade de Gary Ross ou ao The Truman Show - O show da vida (produção de 1998, de Peter Weir), onde tudo, mas absolutamente tudo, é belo, limpo e dá certo.
O gaúcho radicado em Cascavel, Luiz Carlos Brugnera, 35 anos, um dos artistas convidados, foi mais longe na comparação. Um dos seus trabalhos apresentados consistiu numa performance dos Teletubies, aqueles bichinhos animados da televisão que aparecem num cenário de campos verdejantes e coelhinhos fofos. Depois de conhecer o espaço, Brugnera foi buscar fantasias em Cascavel e organizou um jogo de futebol com os bonequinhos, com direito até mesmo a hino do time. Filmou a performance e tem o objetivo de apresentar um vídeo (e até uma história em quadrinhos) sobre o tema. O cenário de Faxinal do Céu é ideal para os Teletubies. Parece que um deles vai surgir a qualquer momento, compara.
Mas Brugnera avisa que a performance não foi uma crítica ao evento. O artista, que em sete anos de trabalho (nove como profissional) ganhou 26 prêmios nacionais, durante o Faxinal das Artes deu continuidade ao seu belo e primoroso trabalho com grafite. Aproveitou também para estudar os traços da série hiper-realista que está criando para expor, a convite, no Museu Latino Americano de Los Angeles, em 2004.
Apesar de muitos artistas apresentarem seus trabalhos ao ar livre, sob o intenso frio e chuva da região, outros tantos optaram por transformar os chalés individuais em autênticos ateliês. A catarinense Mainês Olivetti, radicada em Curitiba, utilizou 32 globos de iluminação para dar luz a sua sala de estar. Pendurou os globos no teto e deles fez cair charmosas redes de pesca. A obra, chamada de Titãs (gigante mitológico que quis escalar o céu e destronar Júpiter) pode tanto ser doada para o novo museu estadual que inaugura em setembro em Curitiba, destino de partes das obras feitas no evento, como integrar a próxima exposição da artista, ainda sem data definida.
Já Edilson Viriato, um dos 30 artistas paranaenses convidados (o restante eram de outros estados), optou por trilhar os dois caminhos. Bebeu tanto da inspiração que o belo espaço proporciona, como da solidão que os chalés ostentam para quem opta por se recolher, ainda que somente por algumas horas. Em 15 dias, Viriato tirou inúmeras fotografias, fez diversos desenhos que serão utilizados em trabalhos posteriores e realizou dois vídeos: O caminho do caminhar, onde aproveita a relação com o espaço e com as interferências urbanas encontradas no caminho e O nojo que você sente de mim é o mesmo nojo que tem dentro de você, onde ingere, separadamente, leite e chocolate em pó, mistura em gargarejo e devolve ao recipiente, para depois, beber tudo novamente. No vídeo, Viriato utiliza garotos propaganda para provar que essa é a melhor forma de beber um leite achocolatado.
Para Viriato, apesar da disputa de egos e da utopia de algumas palestras e propostas, Faxinal das Artes, foi, sem dúvida, um evento surpreendente e que deve ter continuidade. A necessidade de uma sequência, aliás, foi um pedido de todos os participantes entrevistados pela Folha. Se depender da secretária da Cultura, Mônica Rischbieter, essa é uma solicitação já garantida. Ela não só avisa da probabilidade de uma segunda edição, ainda sem data definida, como adianta a execução de uma nova versão do evento: o Faxinal da Música, proposta por Paulinho da Viola e já programado para setembro. Para a secretária, o resultado desta primeira edição, superou a proposta em todos os aspectos. As pessoas trabalharam muito, foi muito positivo, conclui.


