‘‘A Soma de Todos os Medos’’ atende na medida aos reiterados apelos publicitários do presidente George W. Bush em busca de maciço apoio da população na caça aos terroristas em terras de Tio Sam, e contribui para que os americanos relevem a comprovada e monumental inépcia dos organismos de segurança interna do país. Por coincidência lançado nos Estados Unidos dias antes do anúncio da prisão do homem que estaria construindo a tal ‘‘bomba suja’’ para explodir em Washington, o filme de Phil Alden Robinson, já a partir do título desprovido de qualquer sutileza, dá bem a medida da participação hollywoodiana neste paranóico esforço de guerra que tem como objetivo final justificar e legalizar atos da truculenta e arbitrária política internacional dos Estados Unidos. Os primeiros e ótimos resultados nas bilheterias dão bem a medida desta relação perversa, que engrossa as filas na porta dos cinemas.
Para não ficar muito parecido com a realidade mas desde já perigosamente parecido com a realidade, ‘‘The Sum of All Fears’’ não coloca em ação homens-bombas islâmicos ou terroristas domésticos, mas uma odiosa coalisão de neo-nazistas europeus que pretende restaurar as glórias do Terceiro Reich, provocando um mal-entendido nuclear entre EUA e Rússia que culminaria em hecatombe nuclear. Com as duas potências destruídas, o fascismo reinaria soberano. Mas como? E onde? É nesta mixórdia que se mete o agente da CIA Jack Ryan (Ben Affleck), tentando resolver uma complexa equação nuclear. Ao lado do patrão Cabot (Morgan Freeman), Jack brinca de alta política com o presidente (James Cromwell) e seu staff, e embarca para várias missões secretas na Rússia e no Oriente Médio. A história ressuscita algumas razoáveis caçadas cinematográficas semelhantes, como em ‘‘Domingo Negro’’ (77, John Frankenheimer) e o mais recente ‘‘O Pacificador’’ (97, Mimi Ledder), mas aqui nada faz muito sentido, com seus personagens chapados e unidimensionais e sua muito surrada estrutura de argumento travestida de densidade. Salva-se, como sempre, a produção impecável, afinal mera obrigação de quem se propõe a fazer espetáculo a partir da sempre invejável soma de todos os dólares.
Mas o maior mistério em ‘‘A Soma de Todos os Medos’’ não é como os terroristas tramam para detonar a ‘‘bomba suja’’ no centro de Baltimore. O que é bem mais intrigante é como o agente da CIA, Jack Ryan, criado pelo escritor Tom Clancy e anteriormente interpretado por Alec Baldwin e Harrison Ford, subitamente ficou 30 anos mais jovem e se transformou num calouro da agência, com apenas poucos meses de experiência. Em metamorfose jamais explicada no filme, e com os traços de um inconvincente Ben Affleck, ele não é mais o veterano comandante em filmes como ‘‘Jogos Patrióticos’’; agora é pouca coisa além de um desajeitado adolescente com uma namorada fogosa e um chip no ombro.

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