Na primeira fase do Filo 2000, a maioria das 24 encenações apresentadas propôs uma discussão sobre a solidão. Algumas peças escancaram o tema do desterro humano, outras apenas resvalaram nessa temática. Algumas ainda mantiveram na penumbra o homem buscando encontrar o seu caminho solitariamente. ‘‘Prêt-à-Porter 3’’, criação coletiva do Centro de Pesquisa Teatral do Sesc, de São Paulo, coordenado pelo mestre Antunes Filho, desfolhou a dificuldade de relacionamento num grande centro urbano. Nas três cenas apresentadas, a solidão serviu de escora para a dramaturgia.
No caos urbano, as portas dos cubículos se mantêm fechadas. Por isso, o público precisou espionar (não assistir) à encenação de ‘‘O Sofᒒ, da Confraria Cênica, de Curitiba. Entre quatro paredes, um insone e seu duplo, tentam espantar o horror ao vazio, sendo canibalizados pelos observadores. Não se pode direcionar os faróis sobre a solidão no submundo das cidades grandes sem citar Mário Bortolloto. Em ‘‘Efeito Urtigão’’, Marcão foge para o mato, desiludido com a profissão. É o existencialismo de Bortolloto numa versão conflituosa.
No Zaqueu de Melo, o Teatro Macabéa, de Londrina, propôs uma discussão sobre o homem contemporâneo tentando não sucumbir diante da sobrevivência material. Em ‘‘Balada de Um Palhaço’’, de Plínio Marcos, Bobo Plin e Manelão se revelam solitários em seus valores. O cárcere cotidiano deflagrou a guerra entre o alimento do corpo e do espírito.
Mesmo em espetáculos em que o humor se esparramava no palco, como ‘‘O Nome do Sujeito’’, da Cia. do Latão (SP), os personagens estavam na penumbra de uma existência solitária, como a velha cega enganada pelo vendedor e a garota Margarida, estuprada à beira de uma praia fétida.
Por esse mesmo caminho chegou ao palco do Cine-Teatro Ouro Verde ‘‘Tudo no Timming’’, com Os Fodidos Privilegiados (RJ), distribuindo escracho. A trupe virou no avesso histórias de pessoas solitárias. Na segunda cena, ‘‘Tudo Bem’’, um rapaz de uma cidade grande, tenta conquistar uma moça. Noutro quadro uma jovem gaga procura sair da solidão se matriculando numa escola de línguas. O paradoxo é que para empreender essa fuga, ela buscou aprender um idioma que ninguém fala.
Os solitários nunca estiveram tão bem acomodados esteticamente como em ‘‘Truveja Pra Nóis Chorᒒ, com a Verve Cia. de Dança, de Campo Mourão (PR). A plasticidade da solidão ficou registrada na memória dos espectadores londrinenses na cena em que um rapaz fez as cruzes que irão povoar o cemitério da cidadezinha nordestina. Essa região brasileira também esteve presente na encenação que fundiu dança e artes plásticas ‘‘De Areia e Mar’’, com a Cia. Arquitetura do Movimento (RJ). Andréa Jabor concebeu uma coreografia que expressasse a difícil e solitária caminhada de um sertanejo, da árida caatinga até o mar. Outro matuto veio a Londrina no espetáculo-solo ‘‘Memória do Embornal’’, texto de Iris Gomes da Costa, protagonizado por Jackson Antunes. Zé Cabriolé busca sua amada Doramina, enquanto reflete sobre sua trajetória como matador.
A dimensão da solitude se valeu do recurso da máscara, no espetáculo Rinfinfim no Medelim, com o Grupo Teatral Moitará (RJ). O personagem Seu Hilário tenta conquistar Maria, numa tentativa frustrada. Outra garota em busca de seu par, Pipi, procura ganhar o coração do excepcional Hilário, irmanado da Comédia dell’Arte. Os uruguaios resgataram um texto de Heiner Muller, levando à cena o alter ego do dramaturgo alemão. ‘‘Ayax, Por Ejemplo...’’, o solilóquio de Cláudio Castro, instiga ao público a se questionar: o que vou fazer agora? Pergunta constante em nosso diálogo interior.
O espetáculo interativo Cittá Invisibile, criado pelo diretor Pino Di Buduo e o grupo italiano Potlach, apresentou uma sequência de quadros que ressaltavam a solidão humana. O homem no alto da caixa d’água agindo como uma bússola gritante, ou o casal de namorados impedidos de se encontrar, ou a moça enterrada viva recitando textos de Ítalo Calvino engrossaram a fila dos desvalidos e solitários.
Finalizando, ‘‘Antígona’’, adaptação ítalo-brasileira do clássico de Sófocles, também retrabalhou o tema solidão. Num réquiem ao som de Janis Joplin, o Grupo Teatral Fase Três entrelaçou a trilogia sofocliana e a tragédia pessoal do grupo. O momento solitário de encarar a morte serviu de pano de fundo dramatúrgico.

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