Logo no início do filme, a intensa utilização da música de Maurice Ravel, o exaustivo ''Bolero'', busca dar uma pista para aquilo que o diretor Brian De Palma pretendeu com este foguetório de artifício em lançamento no Brasil (veja a programação de cinema na página 2) e que manteve aqui e no resto do mundo o título original, ''Femme Fatale''. O arranjo estilizado, longe das conhecidas execuções pelas orquestras sinfônicas, representa o que o diretor de ''Dublê de Corpo'', ''Um Tiro na Noite'' e ''A Síndrome de Caim'' mais gosta de fazer: estilizar a si mesmo. O território é por excelência o auto-plágio e a citação, explícita ou não, de clássicos do ''film noir''.
A bela, muito perversa mas impronunciável Rebecca Romijn-Stamos é Laure Ashe. Ladra elegante, pilantra internacional e mais tarde mulher do embaixador dos Estados Unidos na França. Antonio Banderas é o ''paparazzo'' Nicolas Bardo, que comete o erro de tirar uma foto na hora errada. Laure é obviamente a ''femme fatale'' do título, sempre vestida para roubar e matar (alguém se lembra daquele jogo proposto por De Palma ?) e o que é mais evidente, desfilando num filme de...De Palma. O cenário é o Festival de Cannes, onde é armada a trama. Há um sofisticado roubo de diamantes, pretexto para que a misteriosa Laure seduza e leve para a cama a anoréxica Verônica (Rie Rasmussen) - ou seria vice-versa? A moça tem parceiros que trabalham afinadíssimos, enquanto ela manipula o pobre fotógrafo naquele esquema sempre tão caro ao diretor, isto é, paixão, decepção e vingança.
O argumento evolui para a estratosfera, rivalizando quase no mesmo nível com as viagens alucinatórias de David Linch. No trajeto, busca e troca de identidade, dualidades de toda espécie, mudanças de trajetória, traições e, para não faltar, certo pedantismo a título de ''cinema de arte'', com a utilização de metáforas. Na verdade, ''Femme Fatale'' é acima de tudo sobre as três coisas que De Palma mais gosta: mulheres, filmes e mulheres. E se o filme parece uma espécie de paródia-homenagem barroca a um gênero tão caro ao diretor, ele é afinal isso mesmo. O único problema é que este é um movimento perigoso. De Palma assume o risco de, a exemplo de ''Tropas Estelares'' e ''Showgirls'' de Paul Verhoeven, ser acusado de levar a sério o material que pretendia satirizar.

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