A sofisticação de Carla Bley no Heineken Concerts
São Paulo, 04 (AE) - A compositora Carla Bley é uma mulher de características raras no mundo do jazz. Primeiro, porque é completamente independente, não pertencendo a nenhum grupo em particular - nem aos engomados da trupe de Wynton Marsalis nem aos delirantes de Pharoah Saunders. Segundo, justamente porque é mulher - e só existem duas grandes compositoras no mundo do jazz atualmente, ela e Maria Schneider.
"Não acho que sejam raras mulheres compositoras; o que é inusitado hoje em dia são compositores de jazz, homens ou mulheres", disse a artista, em entrevista por telefone, na semana passada. Cabe a ela e ao marido (o baixista Steve Swallow) o show mais sofisticado e "difícil", por assim dizer, desse Heineken Concerts.
Ela anunciou que está compondo uma nova peça, de oito minutos de duração, para estrear no festival. E confessa que não gosta de tocar piano, instrumento ao qual ela é associada desde os anos 60. Já disseram até mesmo que ela seria uma digna discípula de Thelonious Monk, mas ela diz que prefere Art Tatum. "Minha habilidade não é grande, mas é o meu instrumento de composição", justifica. "Eu poderia tocar saxofone, por exemplo, mas é difícil de soprar", brinca.
Carla esteve no Festival de Inverno de Campos do Jordão, em 1995. Pouca gente viu os shows, na serra e em São Paulo, mas ela gostou da experiência. "Lembro bem do povo, da comida e da música", conta. Ela assistiu a alguns workshops do italiano Carlo Buonarotti e disse que sentiu um entusiasmo excepcional dos bolsistas em Campos do Jordão, o que a fez até modificar sua maneira de executar certas peças do seu repertório.
E é besteira perguntar a Carla Bley o que ela sabe de MPB. Ela não se gaba, mas a lista dos músicos que conhece dá uma medida da sua curiosidade: João Gilberto, Baden Powell, Luís Bonfá, Dorival Caymmi, Chico Buarque, Garoto, Naná Vasconcelos. Ela também aproveitou a entrevista para perguntar quem era o baixista que acompanhava a cantora Rosa Passos em um show ao qual assistiu "alguns meses" atrás, na Europa. Steve Swallow ficou impressionado com o músico.
"Ele amou o cara", disse Carla. Pena: o repórter não sabia quem era o baixista naquela circunstância, mas certamente é Jorge Hélder, que já acompanha a cantora há algum tempo (e também Caetano Veloso e Chico Buarque). Eles gostariam de tê-lo no seu palco. Ela chegou a ser garçonete no Birdland, nos anos mais bicudos, é uma das mais respeitadas figuras da cena jazzística atual.
Com o ex-marido, Paul Bley, ela fundou a cooperativa Jazz Composers Guild, em 1964, e ajudou a formar dois selos para promover o trabalho de iniciantes. Bley, na época em que foram casados, tocava com Charlie Mingus, Chet Baker, Don Cherry
Donald Byrd, Ornette Coleman e outros monstros sagrados.
Entre seus feitos mais populares consta a releitura para big band da trilha de "Oito e Meio", de Fellini. Isso foi em 1981 e o próprio Nino Rota aprovou entusiasmadamente a transcrição. (J.M.)





