Só aos bufões, asco da espécie, destina-se a tarefa de apertar o pus do mundo. Em ‘‘Gueto Bufo’’, espetáculo de hoje e amanhã no Filo, duas descendentes da linhagem extraem graça da desgraça para revelar o ridículo da sociedade.
A peça apresenta apenas duas personagens, duas bufonas amorais sem nada a perder, que são desprezadas por todos e passam a viver na sarjeta tirando sarro do mundo que as exilou. Vênus (Daniela Carmona) não tem braços, mas tem uma língua afiada. Filó (Cláudia Sachs) apenas murmura, mas compensa a falta de palavras com excessos de teimosia.
Sem teto, elas arrastam-se em farrapos pelas ruas usando o humor como escudo diante da realidade. No meio da miséria e da sujeira, ainda encontram ânimo para cantar e tocar os instrumentos musicais que levam no saco de estopa. A peça transporta os bufões ao centro do palco, no qual costumam aparecer apenas como coadjuvantes, da mesma forma como são rejeitados como ‘‘figura menor’’ nos ensaios acadêmicos.
A descoberta de sua figura, entretanto, cativou a atriz e diretora gaúcha Daniela Carmona durante uma temporada de estudos na École Phillippe Gautier, em Londres, onde viu desfilar os gregos, os elisabetanos, o absurdo, o naturalismo, a comédia francesa, o melodrama e os clowns. Desse encontro, nasceu a peça.
‘‘Gueto Bufo’’ estreou em 1998. Um ano depois, recebeu os prêmios de melhor espetáculo, melhor direção, melhor atriz e melhor maquiagem no Festival Nacional de Lages (SC). No mesmo ano, faturou os troféus de melhor espetáculo e melhor atriz no Prêmio Açorianos de Teatro, em Porto Alegre. O espetáculo será apresentado hoje e amanhã, sempre às 19 horas, no Teatro Zaqueu de Melo.

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