Há pouco menos de duas décadas, 1988 precisamente, o Japão amanheceu certo dia entre estarrecido e emocionado diante de fatos insólitos mas reais, que o cinema se encarregaria mais tarde de mostrar ao resto do mundo. Quatro crianças filhas da mesma mãe, mas de pais diferentes, foram abandonadas por ela num pequeno apartamento, depois de terem passado sua curta existência ilegal nenhuma delas tinha registro civil sem ir à escola e nem serem vistas pelos vizinhos, já que foram introduzidas no imóvel dentro de malas e nunca foram à rua. Durante seis meses sobreviveram como puderam sob os cuidados do irmão mais velho, até que um acontecimento trágico encerrou a aventura.
Este em linhas gerais é o argumento do qual o diretor Hirokazu Kore-eda partiu para realizar em 2004 ''Ninguém Pode Saber'', em lançamento hoje no circuito local (veja a programação de cinema na página 2). Ficcionalizando estes fatos reais, o diretor se esforçou para não cair na vala comum da ênfase nos aspectos dramáticos e negativos daquela crônica social. E o fez com a certeza de que aquelas crianças devem ter tido inúmeros momentos de cumplicidade e alegria misturados a outros de muita tristeza e dificuldades.
Na entrevista coletiva no Festival de Cannes do ano passado, onde o filme recebeu o prêmio para melhor ator (o garoto Yuya Yajira), aliás o primeiro de uma extensa galeria, o diretor Kore-eda disse que ''não queria mostrar o inferno visto de fora, mas a riqueza daquelas vidas a partir de dentro''. Nenhuma dúvida quanto a ele ter conseguido ou não.
O ambiente inicial desta família é de carinho, ajuda mútua e responsabilidade, com uma educação que supera com vantagens a falta da mãe, egoísta e imatura. São palpáveis a felicidade e a ingenuidade infantis, bem como a insuspeitada capacidade para superar as dificuldades, entre estas a debilidade de personalidades ainda em formação. Debilidade que os fará afinal infringir as normas auto-impostas para que não sejam descobertos pela vizinhança ou para sobreviver ao caos e às necessidades.
Um dos méritos da direção foi a criação de um ambiente adequado para que estas crianças, sem nenhum experiência em cinema, estivessem sempre acomodadas e espontâneas. Assim foi possível extrair delas toda a inocência e a singeleza em papéis que evoluem no decorrer da história. Segundo Kore-eda, obter a mudança de atitude diante da realidade que elas vivem no filme foi algo de certa forma facilitado porque ele filmou cronologicamente ao longo de todo o ano, seguindo as quatro estações, de modo que suas vidas reais iam amadurecendo à medida que representavam a ficção.
''Ninguém Pode Saber'' começa de maneira doce, muito afetuosa. Os personagens são simpáticos e exemplares, de modo que o espectador não sofre por causa de sua penosa situação familiar e social, embora já antecipe os problemas que se aproximam. Pausada e progressivamente, o filme vai entrando pelos terrenos mais dramáticos e duros que se possa imaginar. Acompanhando estas crianças, a trajetória é em plano vertical ladeira abaixo rumo à tragédia. Depois de viver com elas o cotidiano infantil cheio de coisas pequenas, de ilusões, já é então possível se indignar com a ausência da mãe, ou perceber o sentido de culpa da filha maior, ou experimentar as difíceis condições de crianças que, para sobreviver, recolhem sobras de comida ou lavam a roupa na fonte da praça.
Com tato e mantendo distância da morbidez, Kore-eda trata seus pequenos personagens com carinho, respeito e compreensão. Eles se aproximam ainda mais de nós porque a direção recorre a frequentes primeiros planos de rostos e objetos, procurando assim penetrar em seu interior. Isto é feito de maneira delicada, com detalhes que vão calando fundo no espectador.
''Ninguém Pode Saber'' não dá identidade corpórea ao mal, mas delineia com precisão a desgraça. Este não é um filme feito para consciências ocidentais bem-pensantes. É, sim, um retrato existencial com frequência incomodo, mas necessário. Apesar da dureza do drama e da lentidão da narrativa ao contar detalhes cotidianos, é um filme posto a público em formato de fábula e que não abre mão nunca da oferta generosa de sensibilidade e humanidade. (C.E.L.J.)

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