A síntese do brega
Lindomar Castilho prepara um novo disco, fala sobre a tragédia que marcou sua vida e assume a condição de legítimo representante da cafonália
Dorico da SilvaLindomar Castilho: A pecha de brega já foi depreciativa, hoje isso foi superado
Antônio Mariano Júnior
De Londrina
O cavanhaque é coisa do passado. O estilo musical os boleirões ainda prevalece. O passado ainda o ronda a memória do povo brasileiro é fraca só para algumas coisas. Mesmo sabendo disso, o cantor e compositor Lindomar Castilho está retomando sua carreira artística depois de cumprir exatos doze anos e dois meses de pena por ter matado sua ex-mulher Eliane de Grammont. A tragédia ocorreu em março de 81. O artista cumpriu um terço da sentença trancafiado (em penitenciárias de São Paulo e Goiás) e o restante em regime semi-aberto.
O Brasil inteiro comentou o caso. Principalmente porque se tratava de um dos maiores ídolos populares que emplacava sucessos e mais sucessos nas rádios. Os números atestam sua popularidade no total, foram 29 discos, dos quais 14 gravados em espanhol. Todo mundo sabe ao menos um trecho de alguns de seus hits, entre eles Ébrio de Amor, Coração Vagabundo e, principalmente, Eu Vou Rifar Meu Coração , Você É Doida Demais (regravada recentemente por Leandro e Leonardo) e Nós Somos sem Vergonha (que a dupla emergente Rick e Rener transformou novamente em sucesso).
Enfim, na década de 70, Lindomar Cabral (seu nome verdadeiro) era garantia de sucesso. Muitos compositores ansiavam por ver suas músicas gravadas por aquele camarada de voz forte e jeitão de latin lover, um dos ícones da cafonália brasileira. Mas Lindomar prefere ser chamado mesmo de romântico. Aos sessenta anos - declarados -, o artista se esquiva um pouco de falar da tragédia que o fez desaparecer por uns bons anos do foco da mídia. Esquiva-se elegantemente (às vezes descaradamente), usa eufemismos mas reconhece: o recomeço está sendo difícil. Preciso do apoio de todos porque apoiar o ser humano é obrigação das pessoas diz humildemente.
Lindomar, que se apresentou no final de semana na Casa de Shows Estância, em Londrina, concordou em falar com a Folha2. Não impôs nenhuma condição embora tenha se desviado com categoria das perguntas mais particulares.
Falante e bem-humorado, o cantor e compositor expressou sua opinião sobre diversos assuntos. A fama de macho prevalece. Mulher é a coisa mais perfeita que Deus colocou para o homem e vice-versa. E macho que se preza é contra esse papo de união civil entre iguais: Acho isso um absurdo. E podem se preparar porque até o final do ano Lindomar voltará com tudo à mídia.
Nessa semana ele se reúne com uma gravadora para lançar um disco que, segundo ele, vai reposicioná-lo na condição de ídolo popular. A seguir, os principais trechos da entrevista.
Está sendo difícil recomeçar a carreira? Aliás podemos chamar de recomeço?
Podemos não, devemos chamar de recomeço. Recomeçar é muito mais difícil que começar. Está bem mais difícil recomeçar certamente pelo peso da idade porque não tenho mais aquele vigor.
Vamos ser mais objetivos: o fato de ter ocorrido aquela tragédia em sua vida dificulta ainda mais esse recomeço?
Dificulta o caminho, mas esse tipo de dificuldade existe para ser superada. Isso para mim é café pequeno.
Preconceito e discriminação, então, você tira de letra?
Eu vou tirando de letra, ou pelo menos vou batendo até furar.
Lindomar Castilho é brega?
Esse negócio de brega nasceu comigo.
Como assim?
Fui um dos primeiros a receber essa pecha. Eu sempre cantei desse jeito porque sempre fui desse jeito: sou romântico, canto a música romântica, sou um cantor que assume o que faz. Essa pecha já foi depreciativa, pelo menos na época em que começaram a me chamar assim. Isso hoje foi superado porque ser brega hoje é ser legal, chique, é bacana. A palavra brega, hoje, virou uma palavra corriqueira.
Então chamar você de brega não é ofensa?
De forma nenhuma. Isso é apenas um modus expressandi, uma forma de expressão.
Em termos de romantismo, o Brasil está mais para Lindomar Castilho ou Roberto Carlos?
Roberto quase sempre foi um cantor romântico, hoje em dia é essencialmente romântico e religioso. Como eu: sou romântico, sou católico e respeito todas as religiões. Então, Roberto Carlos teve sua época de jovem guarda, de música mais movimentada. Hoje, ele é romanticão. Por que não dizer brega? Se bem que não fica bem dizer brega ao nosso rei.
Seu público é o mesmo, aumentou ou dimuinuiu depois daquela tragédia em sua vida?
Não é o mesmo porque começa com uma somatória da juventude que está conhecendo minha música. Isso porque a juventude está percebendo que não tem nada ver a pessoa com o artista.
Quer dizer que os jovens estão curtindo seu trabalho...
Tenho dois fãs-clubes mantidos por jovens: um em Santa Maria (RS) e outro em Petrolina (PE). Esses jovens ouviram meus discos que eram da coleção dos pais. Gostaram e resolveram fundar os fãs-clubes. E isso é gratificante porque fizeram tudo espontaneamente. Ah, mas também sou parado nas ruas por jovens que dizem: meus pais te adoram, dá um autógrafo pra eles e pra mim também.
Você era um grande ídolo popular no Brasil, houve uma quebra pelo motivo que todo mundo sabe...
(interrompendo) Principalmente eu sei.
Tá, então vamos por aí. O que você aprendeu dessa lição?
Eu sei o seguinte... É sério, foi sério o que aconteceu e eu sou sério ao falar com o meu público sobre isso... Indiferente de uma pessoa ser aficionada ou não por Lindomar Castilho prestem atenção ao que vou dizer: nós, seres humanos, somos passíveis de erros.
Você foi vidraça por um bom tempo não?
Nossa!! Ainda sou. Mas isso não tem importância... O destino é construído por nós mesmos... Essa pergunta suscita a oportunidade de dizer: gente, cuidado ao jogar pedras. É que normalmente as pessoas que jogam pedras não conhecem a realidade dos outros em sua profundeza, em suas nuances.
Você, em outras palavras, não deve mais nada à sociedade, certo?
Com certeza.
Vamos falar do estilo do cantor. É um estilo macho pra caramba, não?
É... Tudo bem, até entendo o que você quer dizer.
O Nelson Gonçalves dizia que enquanto existissem mulher e homem ele iria vender discos...
Ai das mulheres se não forem os homens e ai dos homens se não forem as mulheres. Deus me livre!
Cantar pra homem está descartado?
(rindo) Peraí, bicho! Mulher é coisa mais perfeita que Deus colocou para o homem. E vice-versa.
E o que você acha do projeto de lei que prevê união civil entre pessoas do mesmo sexo?
Ah, eu acho isso um absurdo. Isso é... Não tenho nada contra e nada a favor desse negócio de entre quatro paredes. Agora, a favor de uma situação dessa, de legalização eu sou radicalmente contra.
Aborto também?
Contra o aborto também. Tem muitas formas de se evitar filhos. Temos a camisinha aí para usar inclusive porque há muitas doenças como a Aids. Alô, juventude!! Se bem que tem coroa por aí que não usa porque diz: não uso porque na minha época não se usava isso. Isso é uma baita ignorância.
Você está casado?
Não, tenho namorada firme.
Namorada ou namoradas?
Namorada. Deixa ela saber dessa história de namoradas, rapaz, pra você ver.
A mulherada avança muito nos seus shows?
Não, porque o público romântico sempre foi tranquilo.
Quando você estava preso ensinou violão aos companheiros. E parece que você criou um método próprio. Que método é esse?
É... fiz isso enquanto cumpria sentença em São Paulo e em Goiás.
Aliás, você cumpriu quanto tempo...
Fui condenado a 12 anos e dois meses e cumpri um terço da pena em regime fechado e o restante em regime semi-aberto. Fui o cara mais vigiado desse mundo por ser uma pessoa pública, o que era natural. Cumpri ipsis litteris. E nas duas ocasiões em que cumpri pena em São Paulo e em Goiás, a primeira coisa que procurei fazer foi trabalhar. Aliás, o trabalho é um benefício para o sentenciado. Montei uma escola chamada Canto e Violão. Lecionei para os presidiários e foi importante porque levamos a arte para dentro dos presídios. A Giannini e a Di Giorgio, por exemplo, me ofereceram violões nas duas localidades. Acho que fui muito útil. Três ex-alunos, por exemplo, hoje vivem de dar aulas de violão e canto.
E o método?
Cada corda do violão recebeu o nome de um dia da semana. Por exemplo: domingo era a corda mi, segundo a corda si, terça é sol, e aí vai... E isso ajudava a memorização de quem nunca havia pego um violão antes. E dava certo.
Nossa, nem Paulo Freire pensaria nisso.
(rindo bastante) A necessidade faz o hábito... Aliás, falar em hábito, parei de fumar e beber.
Não bebe mais nada?
Beber, nunca fui um beberrão, mas fumar eu fumava demais.
Mas as notícias davam conta de que você era chegadinho numas biritas
Ah, eu tomava um uisquão, com certeza. Mas foi mais fácil de largar do que o cigarro.
Muitos ex-presidiários tem vergonha da condição. O que fazer?
Às vezes a sociedade, de um modo geral, não os acolhe da maneira como deveria. Quero dizer aos meus irmãos: lembrem-se da fé. Não se desesperem não porque sempre haverá alguém para lhe dar a mão.





