A singularidade do Brasil feita de muitas singularidades
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terça-feira, 01 de fevereiro de 2000
Por Antônio Risério (Especial) 
São Paulo, 01 (AE) - O Brasil vai completar o seu primeiro meio milênio de vida. E devemos comemorar. Em 500 anos de existência histórica, fizemos duas coisas nada insignificantes: um país e um povo. Questões conjunturais não podem ofuscar isso. Temos é de saber olhar para nós mesmos, para o que somos e para o que desejamos ser. Curiosamente, na soleira desse aniversário, o velho problema da "identidade" volta a nos envolver. E aqui temos de ser radicalmente antropológicos, histórico-antropológicos, se de fato queremos entender algumas coisas. Os "clássicos" da interpretação do Brasil estão todos velhos. Não por culpa deles. Freire e Buarque, entre outros, permanecem luminosamente jovens. Nós é que não temos tido a coragem de levar adiante as suas leituras.
Não é suficiente reconhecer a multiplicidade cultural do Brasil. Alfredo Bosi, por exemplo, insiste no assunto. Mas o esquema que ele propõe, para a leitura dessa pluraridade, é empobrecedor. De sua ótica, teríamos, no Brasil, quatro "faixas" culturais: a cultura universitária, a cultura criadora extra-universitária, a cultura de massa e a cultura popular (a única para a qual Bosi reserva uma abordagem antropológica). Entre outras coisas, Bosi não consegue conceber que é possível fazer uma antropologia da sua "cultura universitária" nem parece passar por sua cabeça o fato de que um professor universitário do Pará e outro do Paraná estão imersos em subsistemas culturais envolventes que são nitidamente distintos. Assim, adotar o esquema que ele propõe é se condenar a uma visão parcial e superficial das realidades brasileiras. Falta-lhe consciência antropológica.
De outra parte, se a consciência antropológica vai se concentrar na definição de uma "essência nacional" ou de uma "identidade brasileira", os resultados também podem ser desanimadores. Basta pensar no caso de Euclides da Cunha. Para além de tudo que nele há de definitivamente incomum e superior, Euclides vai acabar contrapondo uma autenticidade sertaneja à degenerescência mestiça e cosmopolita da vida litorânea. No pólo oposto, podemos citar o caso de Roberto DaMatta. Ao procurar desenhar uma "identidade brasileira", DaMatta vai mobilizar, exclusivamente, signos do litoral. É a sociabilidade praieira, a escola de samba, o culto de santos e orixás, a feijoada.
Acontece que um habitante do vale amazônico pode não ter nada a ver com isso. Pode preferir a sua comida no tucupi, dançar carimbó, jamais ter ido à praia, não dar a mínima importância à Mangueira ou à Portela, menos ainda a orixás - e nem por isso ele deixa de ser e de se sentir brasileiro. Na verdade, o que toma conta da cena, quando DaMatta fala de uma identidade brasileira, é o etnocentrismo carioca, matizado por signos baianos. Como se o Rio fosse não uma das regiões culturais do Brasil, mas o próprio País. E o que é fascinante é que o Brasil é uma singularidade feita de muitas singularidades.
Nos séculos 16 e 17, numa sociedade já relativamente estável e estruturada, configurou-se entre nós, em suas linhas gerais, uma cultura litorânea hoje tradicional, a cultura costeira do Brasil Atlântico Central, articulando-se inicialmente no eixo Bahia-Pernambuco. Já o que ocorreu em São Luís, depois da expulsão dos franceses, foi a formação de uma zona de transição afro-luso-ameríndia, onde voduns daomeanos celebram signos da heresia lusitana do Divino Espírito Santo. E São Luís ficou como um ponto de passagem para o complexo cultural caboclo do Atlântico Amazônico e da bacia do grande rio.
Outra coisa ocorreu nos campos de Piratininga, sob o pulso e o impulso de semi-índios com aspirações européias atropelando o meridiano de Tordesilhas. E não é preciso dizer que nada disso tem a ver com as realidade estetizadas por Guimarães Rosa no "Grande Sertão: Veredas". Mesmo uma enumeração parcial como essa evidencia que a nossa singularidade se faz de muitas singularidades, ao abrigo e à luz da língua portuguesa do Brasil. E aqui não podemos nos esquecer de uma realidade fundamental. No processo de nossa mestiçagem genética e simbólica, o elemento luso foi onipresente.
Não se formou, no imenso território brasileiro, uma só região afro-indígena. E quando o complexo cultural brasileiro ampliou o arco de sua multiplicidade, na Bahia como no Rio Grande do Sul, revelou-se extraordinariamente plástico e vital. Veja-se o caso do Rio Grande do Sul. Delimitou-se ali, a partir do século 19, uma área cultural de colonos europeus, distinta tanto da antiga cultura gaúcha, formada na vastidão dos pampas, quanto da cultura rio-grandense mais lusitana, de base açoriana, concentrada na região litorânea dominada pelo estuário do Guaíba. Mas aqueles alemães e italianos foram se tornando bilíngues - e seus descendentes, brasileiros. Eles foram absorvidos, até se converterem em produtores brasileiros de cultura.
Essa nossa rede cultural, além de múltipla, não é estática. Para acompanhar a sua movimentação, não podemos perder de vista o fato de que o Brasil é um produto de que hoje chamamos "globalização". A globalização é um processo histórico de "longa duração", cujas origens podem ser retraçadas à aventura deflagrada por uma comunidade cosmopolita reunida em Sagres, no século 15, pelo infante d. Henrique. Foi a partir daí que os ibéricos saíram percorrendo praias desconhecidas, até mesmo para divisar um acidente geográfico que receberia o nome de Monte Pascoal. Graças a essa aventura ibérica, o ser humano passou a conhecer a si mesmo, em sua variedade antropológica, e à sua casa - a Terra. E o Brasil veio à luz como fruto desse grande movimento inaugural de planetarização do planeta.
O processo histórico brasileiro se inicia quando se dá uma ruptura no isolamento oceânico em que viviam os nossos antepassados ameríndios. E o Brasil vai forjar a sua diferença, como realidade cultural específica, entre os séculos 16 e 19. Isto é: vai se desenhar como singularidade no período histórico que se estende do fim da era dos Descobrimentos aos primeiros cenários da Revolução Industrial - exatamente entre dois marcos fundamentais do poderoso movimento de "ocidentalização" do planeta, quando, pelo cálculo europeu, o mundo já estaria homogeneizado, com as singularidades e diferenças devidamente abolidas. Mas é que as coisas não foram (nem são) assim tão simples.
Ao tempo em que diferenças se dissolveram, o Brasil surgiu como uma nova - e até ostensiva - diferença. Como se fosse pouco, como uma singularidade feita de muitas singularidades. E isso foi possível porque estamos, desde o início de nossa peripécia, dando respostas culturais vigorosas e criativas aos sucessivos estágios da globalização. A cultura do engenho, o samba e o frevo, as obras de Nabuco e Machado, o terreiro de candomblé, o carnaval, o modernismo, a escola barroco-mestiça de futebol, Freire e Buarque, a poesia concreta, a bossa-nova e a arquitetura neobarroca de Niemeyer e João Filgueiras Lima estão entre algumas dessas respostas. E não será agora que vamos ficar congelados.
*(Antonio Risério é poeta e antropólogo, autor, entre outros, de "Carnaval Ijexá - Notas sobre Blocos e Afoxés do Novo Carnaval Afrobaiano", "O Poético e o Político" e "Avant-Garde na Bahia")


