A síndrome de Murphy
Vamos esquecer por um momento Meg Ryan. Se bem que as coisas até certo ponto se assemelham, em termos de escorregões carreira abaixo. Agora a conversa é sobre Eddie Murphy. Alguém duvida que ele é bom ator ? É só lembrar dos primeiros e bons tempos, ''48 Horas'', ''Um Tira da Pesada''. Estou falando daqueles primeiros filmes, não das sequelas. Uma pena. Perdeu-se pelo caminho com seus pastiches do Dr. Doolittle e do Professor Aloprado, cismou com a polivalência repulsiva de comprovada grosseria diante das câmeras e deu no que deu, uma coleção de equívocos e o gosto amargo do fracasso nas bilheterias.
Entre os infortúnios na carreira de Murphy talvez o mais catastrófico tenha sido a estréia do execrável ''Norbit'' simultaneamente à sua nominação para o Oscar de coadjuvante por seu papel em ''Dreamgirls''. Ninguém que estivesse em cartaz num filme tão ruim como ''Norbit'' poderia aspirar a qualquer recompensa - e Murphy com certeza a merecia pela performance no musical. Mas a Academia não perdoou tamanho acinte. E olha que para a Academia não perdoar...
Bem, parece que o ator quis dar a volta por cima, e tentou com este ''O Grande Dave'' fazer alguma coisa mais palatável e menos desagradável. A tentativa é digna de elogios, mas tentativas às vezes são como boas intenções que não se consumam.
Ainda bem que Murphy faz apenas dois personagens nesta comédia de ficção científica. Um deles é Dave, na verdade uma nave espacial que usa o corpo e o rosto de Murphy. Esclarecendo: Murphy/Dave é a nave espacial que desce em Nova York para fazer contato com os humanos. A idéia é aprender nossos hábitos, sem ser notado. Em seu cérebro estão os verdadeiros ETs, cujo comandante é interpretado por...Murphy.
Dave conhece uma mulher e o filho dela, e o contato vai permitir que o robô, que se veste à maneira dos anos 1970, conheça o que é amizade e compreensão.
Um e outro gag físico de Murphy deixam o espectador com saudade de um tempo em que o ator fazia rir de fato, com boa técnica aliada à malandragem. Mas aqui é muito pouco, e a previsibilidade toma conta da narrativa que mistura sintomas indefinidos de comédia romântica, perseguição policial de rotina e desencontros entre os alienígenas por conta do comando das operações.
Ainda sobre Murphy: no momento ele está dividido entre quatro projetos, quatro comédias, entre elas uma refilmagem de Romeu e Julieta (!). Mas em sua criação mais sólida ele não estará em cena, ou melhor, estará mas na pele e na voz daquele que talvez seja seu melhor personagem - e de uma forma ironicamente emblemática: Donkey, o fiel e quadrúpede escudeiro do ogro Shrek, que volta em 2010 em sua quarta aventura. (C.E.L.J.)





