Rubens Pileggi Sá
De Londrina
Especial para a Folha2
Em uma sociedade marcada pela função utilitária que se espera de todas as coisas, tudo tem que servir para um determinado fim para não se correr o risco de ser simplesmente descartado. Essa é a lógica cartesiana e determinista que considera o mundo uma máquina redutível à exatidão numérica e seu valor é dado pelo preço de mercado.
A arte, então, é tolerada quase como um favor, porque ainda lhe é depositado um valor de esperança e renovação, como uma válvula de escape num ambiente que se torna cada dia mais tenso, competitivo e violento. Nessas condições, gera-se uma expectativa de que o problema geral possa ser resolvido como num passe de mágica, simplesmente delegando responsabilidades que deveriam ser compromisso de todos.
E se confundem valores éticos e estéticos com entretenimento e diversão, perdendo assim todo seu caráter crítico para tornar-se mais um braço da indústria de produção de consumo, como uma grande feira de novidades.
É importante destacar que a Cultura é um organismo vivo, em constante estado de movimento e não pertence exclusivamente ao domínio da arte, como se pudéssemos satisfazer a necessidade da civilização indo a um museu, um espetáculo ou lendo um livro, como quem vai à missa e resolve seu problema de fé. A palavra Cultura vem do latim e tanto quer dizer culto – em sentido religioso, quanto cultivar – no sentido de cuidar da terra.
A função da arte nos dias de hoje talvez possa ser colocada a partir da contradição provocada entre trabalho e prazer, valores comerciais e necessidade de expressão, sacrifício pela sobrevivência e realização pessoal. Assim, essa questão que parece tão distante entre a fusão de arte e vida, ganha corpo e alma, justificando plenamente sua função social, voltada para uma visão coletiva e solidária.
Depois de conquistada a era das tecnologias eletrônicas, o homem do próximo século deixará de ser o Homo sapiens, para se tornar o Homo ludens, disponibilizando melhor seu tempo para o trabalho criativo. Todas as definições de sociedade contemporânea têm apontado nesse sentido.
E para que isso aconteça, a responsabilidade de cada um começa agora e continua a todo instante, assumindo o compromisso com a preservação da vida no planeta. É esse o desafio que exigirá de nós, cada vez mais, o uso da capacidade criativa. E tanto a Ciência, quanto a Arte e a Filosofia, sabem que o século XXI, no novo milênio, será fabricado nas usinas de nossa própria consciência.

mockup