A serenata de Alceu
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 21 de agosto de 1998
Fernando José Karl 
Alceu Bett - caçador do que na matéria inane é sombra e fogo - expõe 19 diários imagéticos de seu percurso pela capital cubana.
Havana, eis o título desta exposição marcada pela seda do sonho e pelo nervo único de uma certa serenata central (humana, demasiada humana), serenata que, sob espécie de Tocororo (um pássaro cubano), sobrevoa o campo aberto ao lúdico desta cidade singular.
As fotos de Alceu, douradas pelo espírito seco da aparição, provocam o conjuro para que a candeia dos objetos - palhaço, escada de ouro, velha à janela, postes de iluminação, menino no retângulo do trem, guarda-sóis - desça à nossa vida interior.
Uma fotografia não é nada. Serve apenas de espelho para que o imo do humo em nós se perceba, se inquiete e floresça invencível. E o humo de cada foto semeia no invisível esta impossibilidade que se chama existir. Os clics de Havana possuem em seu centro a solitude do topázio e o desconcerto agudo de restos abandonados aos instantes de seu poliedro.
Neste singrar pelas arestas e abismos de Havana, Alceu copiou em sua máquina fotográfica a tensão do símbolo que tem que recuperar-se diante do assombro, manter o halo da alegria apesar da fragilidade e do tédio.
Havana de Alceu Bett, também é colossal, com a delicadeza de não ter esquecido a epifania.
Dezenove imagens neste simulacro chamado Havana, onde o detalhe acidental desaparece e a essência revela sua ampla configuração. A nuance realista de cada foto não obscurece a estrutura oculta, por exemplo, desta porta de aura sépia contra uma parede azul ou deste homem de camisa listrada sendo devorado pelo automóvel com cabeça de tubarão.
Havana, tal como o relâmpago, se decifrada, não mais existe. Talvez por isto as imagens desta exposição devam permanecer assim na neblina, no inconcluso, para que sintamos desejo de reolhar cada fragmento não percebido de cada uma das fotos. Uma imagem não se apreende.
Havana asfixiada pela geometria descaroçada de um barroquismo margeado pelo mar do Caribe. Havana, de Alceu, é assim: um passeio pelas volutas encantadas do sonho.
Sóis mudos, Havana é única em sua proposta de se fazer ouvir na música fina das imagens que Alceu Bett ponteia em sua câmera-violoncelo, imagens que organizam o diamante invisível e sabem que o limite é que é soberano.
Fernando José Karl é poeta e jornalista.


