A senhora dos prazeres
PUBLICAÇÃO
sábado, 07 de setembro de 2002
Marcos Losnak<br>Especial para a Folha 
Francisco havia acabado de completar 15 anos no início dos anos 70. As espinham explodiam em sua pele com a mesma violência de seus desejos. Morava em Bauru, interior de São Paulo, e sonhava em viver sua primeira experiência sexual. A conversa com o amigos da Vila Falcão sempre giravam em torno de dois preciosos temas: os jogos do Noroeste e a Casa da Eny.
O Noroeste era o time da cidade que disputava o campeonato paulista de futebol, de igual para igual, com equipes como Santos, Palmeiras, São Paulo e Corinthians. A Casa da Eny era o mais famoso bordel da cidade. Sua fama se estendia pelos quatro cantos do país como uma espécie de paraíso dos prazeres.
As moças que trabalhavam no local eram escolhidas a dedo pela cafetina Eny, que fazia questão de manter, entre suas garotas, as beldades mais estonteantes da sensualidade brasileira. Francisco, bem como quase todos os garotos de Bauru, acalentava o sonho de passar uma noite nos braços das garotas da Dona Eny. Um extenso imaginário era desenhado nas conversas, informações esparsas e histórias, reais ou não, que circundavam o bordel de luxo.
Francisco e seus amigos sabiam que dificilmente teriam acesso ao prazer de entrar pelos portões do lugar. O único recurso era andar de bicicleta próximo da enorme casa retirada da cidade. O garoto gostava de apontar para o bordel com os olhos de quem sabia que ali havia sexo à sua espera, a qualquer hora, em qualquer posição, com as mulheres mais gostosas do mundo. Mas como nunca tinha um tostão furado no bolso, tinha que satisfazer-se com a imaginação e principalmente com as próprias mãos.
Trinta anos depois, Francisco, agora respeitado pai de família, encontra na livraria um livro chamado Eny e o Grande Bordel Brasileiro, recém-publicado pela Editora Objetiva. De autoria do jornalista Lucius de Mello, a obra traça a biografia, de maneira romanceada, da Dona Eny, a cafetina que subiu os degraus da história da prostituição e ofereceu prazeres para um exército de homens.
Tudo o que Francisco ouviu, e principalmente o que não ouviu, pelas esquinas da adolescência sobre a Casa da Eny, encontrou na obra. Soube, por exemplo que Eny nasceu, por erro do cartorário, Emy Cezarino, em 1917, em São Paulo, filha de imigrantes italianos. Após receber um educação rígida e religiosa, entrou para a profissão mais antiga do mundo escondida dos pais. Quando atingiu a maioridade, 21 anos, fugiu de casa para trabalhar no Rio de Janeiro, Porto Alegre e Paranaguá (PR), até instalar-se em Bauru nos anos 40.
De simples prostituta à poderosa cafetina, foi um pulo. Isso graças a suas pernas grossas e capacidade empresarial. Mas seu grande trunfo foi ter íntimas relações com a classe dos políticos, seja em escala municipal, estadual ou federal. Homens como Jânio Quadros, Juscelino Kubitschek, Adhemar de Barros, Paulo Maluf e metade dos prefeitos, empresários, coronéis e usineiros do interior paulista bem como Vinicius de Moraes freqüentaram os quartos da Casa da Eny.
Embora tenha se firmado como exímia empresária e articuladora política, o que mais surpreendeu Francisco foi a intensa filantropia promovida por Eny desde que fundou seu bordel até sua morte, aos 69 anos de idade. Pelo relato de Eny e o Grande Bordel Brasileiro ficou sabendo, mesmo com toda a perseguição moralista, que ela realizava mensalmente doações a orfanatos, creches, asilos, igrejas e outras entidade assistenciais.
Francisco também entendeu que a falência de Eny, apesar de todo seu poder político e econômico, foi provocado por questões culturais, mais especificamente pelas transformações comportamentais. Isso porque antigamente, quando o sexo era aceito apenas depois do casamento, os bordéis eram responsáveis pelo início da vida sexual de grande parte dos homens. Com a chamada liberdade sexual, o anticoncepcional e a proliferação dos motéis, os serviços prestados pela cafetina perderem a glória.
Após a leitura de Eny e o Grande Bordel Brasileiro, Francisco imaginou que seria interessante seu filho de 15 anos ler o livro. Saber um pouco de sua adolescência povoada pela imaginação dos prazeres da Casa da Eny. Conversar um pouco de como o sexo era tratado num passado não muito distante de Francisco ou de tantos outros homens de sua geração.
''Naquele território recentemente ocupado pelos imigrantes judeus, se concentrava a maioria das cafetinas e prostitutas da cidade. Com exceção da rua Aimorés, o endereço de bordéis mais limpos e refinados, as outras ruas eram ocupadas por casas bem simples, de aparência quase miserável. Era o caso da rua Itaboca, rua Carmo Cintra e Ribeiro de Lima. Ali existiam aproximadamente 150 casas abrigando mais de mil mulheres. Elas ficavam seminuas encostadas nas paredes à espera dos clientes. E esses para frequentar a zona tinham que se submeter ao exame do médico sanitarista que ficava de plantão num dos três postos antivenéreos improvisados na área ocupada pelo puteiro. Cabia ao enfermeiro que ajudava no atendimento pegar e arregaçar o pênis do paciente. O médico corria os olhos e decidia se o candidato ao coito podia ou não se deitar com as putas do Bom Retiro. A sífilis era a doença venérea que mais preocupava as autoridades de saúde naquela época. Assim como os homens, as prostitutas também tinham que visitar o médico toda semana para manter a licença que lhes dava o direito de exercer a profissão.''
''O bordel ficou fechado menos de duas horas. Assim que o delegado saiu, Eny telefonou e contou tudo para Nicolinha. O prefeito procurou o juiz da cidade, desembargador Otávio Stucchi, e levou-o para conversar com algumas famílias que moravam perto da zona do meretrício. Queria que o juiz ouvisse elogios sobre o comportamento da cafetina. A maioria disse que ela nunca tinha faltado com o respeito, que era educada e muito carinhosa. o desembargador foi até a pensão e conversou com Eny e determinou por escrito a reabertura da casa. Depois, durante uma entrevista num programa de rádio, afirmou que a zona do meretrício era um mal necessário e que sem as mulheres que viviam lá, a família estaria ameaçada. Nós protegemos as famílias, dona Eny? Como assim?, perguntou uma das inquilinas. A cafetina e as moças ouviram a entrevista sentadas na sala. Depois eu explico, respondeu Eny, desejando que a sociedade bauruense tivesse inteligência para entender as palavras do juiz.''
(Fragmentos de ''Eny e o Grande Bordel Brasileiro'')


