Rua Alagoinhas, nº 33, é um dos endereços mais conhecidos de Salvador, na Bahia. Lá, mora, há 35 anos, o casal Jorge Amado e Zélia Gattai, dois dos maiores escritores da literatura brasileira. Foi justamente lá que a autora de ‘‘Anarquistas Graças a Deus’’ começou a escrever, há quase oito meses, ‘‘A Casa do Rio Vermelho’’, o sexto livro de memórias da carreira.
No livro, Zélia Gattai reúne as muitas histórias vividas na chácara, chamada exatamente de a Casa do Rio Vermelho desde 1964, quando o casal deixou o Rio e decidiu morar em Salvador. Hoje, aos 83 anos, ela lembra de momentos tristes, como a perda da mãe em 1969, e fala de episódios divertidos, envolvendo amigos famosos do casal, como o artista plástico Rubens Caribé e o poeta Vinicius de Moraes.
Qual é a maior diferença de ‘‘A Casa do Rio Vermelho’’ em relação aos livros anteriores?
Zélia Gattai - Neste livro, soltei-me mais do que em qualquer outro. Pela primeira vez, não obedeci a qualquer sequência cronológica. Nele, por exemplo, estou contando uma história e, se lembro de algo mais importante, peço licença ao leitor para interromper a narrativa.
A que você atribui o caráter memorialista de sua obra?
Zélia Gattai - Quando dizem que comecei a escrever tarde, digo que comecei na idade certa. Afinal, já tinha o que contar às pessoas. Aprendi muito com a vida. Aprendi a não cultivar sentimentos ruins, como rancor, inveja, vingança... Hoje, sei perdoar e entender. Acho que isso se deve também à criança que existe dentro de mim. Não me amarguro por nada. A vida não passa de uma grande caçoada...
O que Jorge achou da sua decisão de se tornar escritora?
Zélia Gattai - Entreguei a ele as primeiras 15 páginas do livro e fiquei morrendo de medo. O Jorge não é do tipo que dá colher de chá para ninguém. Mas ele disse: ‘‘Não se preocupe em fazer literatura. Nem perca tempo com frases rebuscadas ou palavras difíceis.’’ Ele não diz nenhuma palavra de incentivo se não estiver plenamente convencido disso.
Você e o Jorge Amado já estão casados há 53 anos. Como é o dia-a-dia do casal?
Zélia Gattai - O único problema do Jorge é que ele é apressadíssimo. A pontualidade dele chega a me incomodar. Na Colômbia, acabei indo de chinelos a uma festa na casa do Gabriel García Márquez por causa da pressa dele. E tem outra coisa. Adoro dançar, mas ele não sabe. Não sabe nem se esforça em saber. Mesmo assim, homem nenhum chega aos pés do Jorge.

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