Revista americana especializada elege os 20 filmes mais influentes da ficção científica de todos os tempos, de Mélies a James Cameron
Reprodução‘‘2001 - Uma Odisséia no Espaço’’: produzido há 30 anos, filme de Stanley Kubrick é insuperável no gêneroReprodução‘‘O Planeta dos Macacos’’: a ironia levada a extremos pelo diretor Franklin J.SchaffnerReprodução‘‘Blade Runner’’: andróides inesquecíveis na Los Angeles suja e ‘‘noir’’ do século 21Reprodução‘‘Laranja Mecânica’’: Kubrick durante a filmagem da fita que mostra a tortura institucionalizadaDivulgação‘‘Star Wars’’: a saga de George Lucas volta às telas com ‘‘A Ameaça Fantasma’’ que está em cartazCarlos Eduardo Lourenço Jorge
Especial para a Folha2
Por muito tempo, o rótulo ‘‘gênero menor’’ foi uma espécie de maldição empobrecedora da ficção científica, tanto literária quanto cinematográfica. Entre as diversas implicâncias dos detratores, é certo que o considerável período de confinamento em gueto teve muito a ver com uma sempre perseguida e inútil tentativa de definição da SF (iniciais do nome em inglês, ‘‘Science-Fiction’’, através das quais o gênero é frequentemente citado). Pois o aspecto mais apaixonante e envolvente da ficção científica, agora novamente na ordem do dia por conta do lançamento de ‘‘A Ameaça Fantasma’’, é que jamais foi possível defini-la. Sempre livre de amarras didáticas, reduções ou simplificações, a ficção científica é o que é. A beleza, a grandeza de ‘‘2001: Uma Odisséia no Espaço’’ é precisamente... ‘‘2001: Uma Odisséia no Espaço’’. E basta, porque de resto, se alguém disser que leu um livro ou viu um filme de SF, fica a certeza de que todos sabemos de que se trata.
Mas se por um lado a definição submete, aprisiona e diminui, por outro escolher os melhores pode ser uma prática bem menos nefasta. Nos Estados Unidos, um colégio eleitoral, composto por cinéfilos, jornalistas, críticos, ensaístas, profissionais da indústria cinematográfica, historiadores de cinema e fãs em geral não abriu mão de eleger seus filmes preferidos em todos os tempos. Convidados pela revista ‘‘Cinescape’’, publicação bimestral norte-americana de SF, os eleitores foram orientados a definir vinte títulos. O resultado pode não agradar a terráqueos e marcianos, mas não há dúvida de que os filmes escolhidos, além obviamente de cinema de primeira classe, tornaram-se ao longo dos anos parte da cultura popular e influência permanente para uma extensa descendência. Vale observar que a colocação dos títulos na lista não é por ordem alfabética, data de produção e/ou lançamento, restando a mera suposição de que o critério ‘‘número de votos’’ decidiu a classificação como aparece em ‘‘Cinescape’’. Fica portanto mantida a ordem de entrada em cena.
1 - ‘‘2001: Uma Odisséia no Espaço’’(2001: A Space Odyssey) - EUA, 1968. O mais imaginativo produto espacial jamais saído de uma mente por trás de uma câmera. Insuperável para sempre - e há 30 anos Stanley Kubrick era apenas um internauta na pré-história, ainda sem acesso ao monolito da refinada tecnologia computadorizada. Celebração místico-metafísica, space-opera trágica, Odisséia revisitada, definitivo embate Homem versus Máquina, ‘‘2001’’ nasceu clássico para a eternidade.
2 - ‘‘Guerra nas Estrelas’’ (Star Wars) - EUA, 1977. O velho e bom George Lucas, escrito nas estrelas. O capítulo inicial, ou o do meio, ou do princípio da segunda trilogia, não importa onde o filme se coloca na saga. O apelo fascinante deste blockbuster histórico é inegável, em especial quanto ao resgate de suas origens aventurescas sob a forma de antologia. O melhor da festa: o encontro das novas gerações de espectadores com o aparentemente perdido espírito de diversão em estado puro. Uma espécie de ‘‘Caçadores da Galáxia Perdida’’, não fossem Lucas e Spielberg compadres de longa data.
3 - ‘‘Blade Runner, o Caçador de Andróides’’ (EUA, 1982). Na Los Angeles chuvosa, enevoada, suja e ‘‘noir’’ do século 21, o encontro original entre os andróides de Philip K. D Dick e o detetive à feição Raymond Chandler. Deslumbrante visão pessimista do Terceiro Milênio orquestrada por Ridley Scott. O mundo em progressiva decadência - social, ecológica e econômica. Harrison Ford não fez ainda nada melhor que este Rick Deckard. E o mesmo se aplica ao andróide de Rutger Hauer.
4 - ‘‘Metrópolis’’ (Alemanha, 1927) - Até hoje as controvérsias acompanham este monumento formal do Expressionismo. Implacável, a crítica mais à esquerda vê no filme de Fritz Lang um germe alegórico do nacional-socialismo, numa Alemanha já então predisposta a eliminar as lutas sociais unificando as classes em torno do futuro Terceiro Reich. Como o Blade Runner de sua época, ‘‘Metrópolis’’ tem momentos excepcionais como tecno-fantasia de antecipação e uma cenografia assombrosa para o período. Para as antologias: a mulher-máquina e sua poderosa carga erótica, antecipando em meio século as folias estilísticas de Paco Rabanne...
5 e 6 - ‘‘O Exterminador do Futuro’’(EUA, 1984) e ‘‘O Exterminador do Futuro 2 - O Julgamento Final’’ (EUA, 1991). Vida inteligente no planeta James Cameron. Fusão competente de ação e SF. E providencial veículo para Schwarzenegger provar que não era apenas um feixe anabolizado. O primeiro é bem mais eficiente, embora a sequela em nada comprometa.
7 - ‘‘Alien, o Oitavo Passageiro’’(EUA, 1979). Suspense e horror a bordo, em pleno espaço sideral. E que nave: a ‘‘Nostromo’’ é um sucatão meio sem rumo, a requerer manutenção e cuidados. E que tripulação: um bando de suados proletários a serviço de um cartel intergaláctico. E que monstro: difícil imaginar um alienígena mais voraz e faminto, criatura com toques surrealistas saída dos desenhos-pesadelos do artista plástico suíço H. R. Giger. E que mulher: Sigourney Weaver há vinte anos, em strip-tease cult de fazer Demi Moore corar de vergonha e arrependimento.
8 - ‘‘O Dia em que a Terra Parou’’ (The Day the Earth Stood Still) - EUA, 1951. Um dos mais estimados clássicos do gênero. Libelo com forte recado pacifista, o filme de Robert Wise é tão relevante hoje como era há quase 50 anos. Chegando a uma Terra assombrada pelo espectro nuclear, o poderoso e amigável alienígena Klaatu tenta pacificar os povos, mas acaba descobrindo que os terráqueos precisam de uma boa lição. Um prazer revê-lo, a qualquer momento.
9 - ‘‘Viagem à Lua’’ (Voyage dans la Lune) - França, 1902. Pura magia, quase da idade do cinema. Filme com apenas 285 metros de comprimento, sem legendas - cartões explicativos, melhor dizendo - é o marco inicial da SF. Saído da fértil imaginação e das hábeis trucagens do prestidigitador Georges Mélies, uma espécie de Spielberg primitivo, ‘‘Viagem à Lua’’ é a primeira antologia de efeitos especiais do gênero. Está tudo lá, feito há quase cem anos: o sentido do espetáculo, a magia, o humor, a alusão ao fantástico, ao sobrenatural, ao mundo dos sonhos, ao erotismo. Do palco para a tela, a preciosa ficção mágica de Mélies, um premonitório surrealista.
10 - ‘‘Invasores de Corpos’’ (Invasion of the Body Snatchers) - EUA, 1956. O grande achado deste inegável cult de Don Siegel é a parábola em duas frentes. A primeira, ostensiva e bem-humorada, se refere à paranóia provocada pela caça aos comunistas americanos na década de 50. A segunda segue um caminho menos óbvio e mais filosófico - o que significa ser humano, e com que rapidez a sociedade marginaliza ou descarta este ser humano quando ele se apresenta portador de alguma doença.
11 - ‘‘O Mundo Daqui a 100 Anos’’(Things to Come) - Inglaterra, 1936. Embora assinado pelo cenógrafo e diretor de arte William Cameron Menzies, o filme teve participação decisiva do escritor H.G. Wells, que escreveu o roteiro e supervisionou quase toda a produção. É um épico que traça um perfil pessimista do futuro, em que a guerra, a doença e o totalitarismo destroem a humanidade.
12 - ‘‘A Laranja Mecânica’’ (A Clockwork Orange) - Inglaterra, 1971. Quem, se não Kubrick, poderia dirigir com sucesso um ultra-elegante, ultra-ultrajante e liberal cult de SF sobre a impossibilidade de redenção e reabilitação da delinquência através de um processo de tortura institucionalizada? Embora o texto católico-alegórico de Anthony Burgess tenha recebido de Kubrick uma confusa leitura antiautoritária, é dever e obrigação de cinéfilo visitas regulares a este rito de passagem em ritmo de montanha russa.
13 - ‘‘Contatos Imediatos de Terceiro Grau’’ (Close Encounters of Third Kind) - EUA, 1977. A obra-prima de Steven Spielberg, que submete os efeitos especiais à sua vontade e prova que SF não tem necessariamente que ser mecânica, fria ou pobre de espírito. Espécie de celebração religiosa, o filme propõe com ternura e generosidade o congraçamento interplanetário. Fábula humanística pós-moderna, em ‘‘Contatos...’’ o observador mais atento vai achar vasto referencial da História do Cinema, imagens e sons num sem número de citações.
14 - ‘‘O Monstro do Ártico’’ (The Thing From Another World) - EUA, 1951. Típico exemplar da sólida produção B hollywoodiana. Atmosfera e suspense admiráveis. Um alienígena invade uma estação científica no Ártico. Assinado por Christian Nyby, devendo muito a Howard Hawks, o filme teve refilmagem explícita e lamentável assinada por John Carpenter em 82.
15 - ‘‘Mad Max II - A Caçada Continua’’( The Road Warrior) - Austrália, 1981. Segundo (e melhor) filme da série que lançou Mel Gibson nos braços de Beverly Hills. Excitação visceral ambientada em cenário pós-apocalíptico. Ágil e inovadora, a aventura sobre guerrilheiros à procura de gasolina no deserto é um tributo do diretor Miller à influências confessadas: westerns, aventuras B em geral e seriados.
16 - ‘‘O Planeta dos Macacos’’ (Planet of the Apes) - EUA, 1968. Uma das características da SF, a ironia, aqui levada a extremos assustadores. Num futuro pós-hecatombe nuclear, macacos muito, mas muito inteligentes, governam o mundo e mantêm humanos como escravos. Três décadas depois, filme de Franklin J. Schaffner ainda é um iguaria fina. Uma refilmagem está a caminho.
17 - ‘‘Aliens, o Resgate’’ (Aliens) - EUA, 1986. James Cameron assume o comando desta primeira sequela e emplaca seu terceiro título na lista. O ritmo da ação é de ‘‘O Exterminador...’’. Sigourney é esplêndida guerrilheira, os aliens se multiplicaram e agora são epidemia. Embora sem a novidade do primeiro, o filme se sustenta com brio.
18 - ‘‘O Enigma de Andrômeda’’ (The Andromeda Strain) -EUA, 1970. Neste inusitado filme de Robert Wise não há aliens monstruosos, não há engenhocas que disparam raio laser. Aqui, o inimigo é uma substância viva, cristalina e microscópica, mas nem por isso menos ameaçadora ou mortífera. Talvez a mais bem acabada lição no gênero sobre como criar tensão, desconforto e medo de forma sutil.
19 - ‘‘Planeta Proibido’’ (Forbidden Planet) - EUA, 1956. A SF visita Shakespeare, numa adaptação livre de ‘‘A Tempestade’’. Mas havia outras novidades, como um tributo à Psicanálise - o monstro do filme é materializado pelo subconsciente. Até aquele momento, a mais cara ficção científica produzida por Hollywood - 1 milhão de dólares, bancados pela Metro e bem administrados pelo diretor Fred McLeod Wilcox.
20 - ‘‘Guerra dos Mundos’’ (War of the Worlds) - EUA, 1953. Uma espécie de filme-chave para o gênero nos anos 50. O produtor húngaro George Pal, um mestre na arte dos efeitos especiais, tem grande parcela no sucesso, ao lado do diretor Byron Haskin. A adaptação do best seller de H.G. Wells contesta a superioridade do homem no Universo. Naves com marcianos invadem a Terra e não há defesa conhecida. A não ser que o vírus de uma gripe comum faça a sua parte... A recente comédia anárquica ‘‘Marte Ataca’’, de Tim Burton, é direta homenagem ao filme.

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